terça-feira, 3 de setembro de 2013

Crime: piropagem.


Acreditar no Bloco em Portugal é como acreditar que os contos de fadas se podem tornar realidade. Mas quando for grande, quero ser bloquista! Quero ter a certeza que todas as prostitutas têm um sindicato, bem como os respectivos proxenetas, para que não haja a vontade de criar monopólios empresariais e depois é uma chatice porque os preços não são competitivos e vão todos ali à Maria Joaquina da Pensão do Intendente, que só cobra 10€ por hora.
Mas não há motivo para preocupação, porque ela é seguida pelo médico de família semanalmente e tem as análises emolduradas para o caso da clientela querer ter a certeza.
Ora pois se o piropo de um construtor civil é, aos olhos de alguns, mais punível do que a prostituição, este seria um cenário possível.
Então mas qual a coima a aplicar a um delito de "piropício"? Ora, uma palmadinha de mão aberta na nuca do criminoso! Se este ficar triste com o sucedido, pode sempre recorrer à Joaquina do Intendente... Pode mandar os piropos que quiser. Ou será que não pode? Bem, crê-se que tal irá depender da variedade de serviços e se existirá, eventualmente, uma panóplia imensa de pequenas taxas extra por cada "o teu pai é arquitecto? É que és cá uma obra!".
Então mas se, à là BE, o piropo for aceitável em contexto de relacionamento íntima entre duas pessoas?
É, realmente, um assunto sobre o qual vale a pena reflectir... Mais que não seja para contar o volume de horas que se perdeu em volta de.

domingo, 1 de setembro de 2013

"Ó estrela, queres cometa?!"


Piropos são uma das formas de satisfação e entretenimento (normalmente masculino) mais rudimentar, básica e fácil que existe. Isso não quer dizer que tenha um efeito positivo junto da população feminina... Ou de qualquer uma. Sim, já todas as raparigas se sentiram insultadas e ofendidas quando saíram de casa com uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais trabalhada, mas é ultrajante pensar-se que isso é tema de interesse público.
Uma coisa é mandar um ou outro bitaite sobre este tema numa conversa de café... Outra coisa é ser bloquista e criar um fórum de debate sobre a mesma questão. Que teimam em perspectivar como um 'problema'. A imprensa já veio esclarecer que não se tratou de querer proibir o belo do piropo, mas sim de discutir a sua filosofia.
Questiono-me então: quem, no seu perfeito juízo, gasta horas de vida debatendo um assunto que não tem debate possível? A resposta existe e é simples... Tão simples que a deixo para vocês. 
Considero que a verdadeira interrogação está enterrada mais fundo do que se pensa. Que viabilidade, em sentido político nacional, pode ter um partido que gasta alguns milhares de euros em fóruns de debate deste género? Fala-se da Judite e do Lorenzo, dos empresários muito, muito "ladrões", e esquecem-se de sublinhar a (real) lógica estapafúrdia que faz parte do oxigénio dos bloquistas de hoje em dia. Tirando um ou outro macaquito menos hipster e mais prático do que teórico, tudo aquilo se resume a uma anedota, porque a reacção social imediata é o riso.
Bem sei que os pequenos partidos devem existir, em prol da variedade política e de ideias, mas o non sense não pode entrar nesta equação. 
Isto de se achar que todos os disparates podem fazer sentido ditos de forma séria é, passando a redundância, seriamente disparatado. 

Quer-me parecer que existe uma relação constante entre o desespero individual e a adesão a lógicas extremistas deste género. Querem mesmo um país governado por pessoas que consideram que o piropo é uma forma de assédio sexual tão 'punível' como comentários racistas ou homofóbicos? Mas porque é que se há-de achar que as mulheres ainda são uma fatia incompreendida e injustiçada na sociedade? Se calhar é precisamente por existirem pessoas com esse pensamento - em pleno século XXI - que acham que a queima do soutien devia ser theme party no Lux.

Leram e pensaram que a autora deve estar ali a roçar o fascismo político. Enganam-se. Apoia muita coisa, principalmente o fomento e interesse cultural e intelectual... Que não visa, nunca, o debate sobre a cor do rabo do porquinho do Sr. António que vive no Monte dos Olivais - à semelhança do que aconteceu com as filosofias bloquistas. 
Uma coisa é ser-se jovem e querer mudar o Mundo. Outra coisa é ser-se jovem e achar que se pode mudar o Mundo, eliminando o piropo

(Brevemente desconstruirei a anedótica discussão que surgiu da comparação entre a gravidade do piropo e da prostituição. Sim, leram bem.)

sábado, 17 de agosto de 2013

Cocó, ranheta e uma facada

Gosto de criticar. Gosto ainda mais de o fazer sobre assuntos que fazem sentido. E gosto muito, mas mesmo muito de pessoas que fazem o mesmo. Não gosto é muito de quem o faz pelos motivos errados, de quem o faz sem fundamento de qualquer espécie mas, principalmente, de quem o faz através dos argumentos mais ridículos de que há história.

Ora e por falar em histórias, aqui vai uma.

ATENÇÃO: A primeira coisa a saber é que considero que a razão e bom senso foram elementos que não existiram no seio da hipotética entrevista do meu conto. A escolha do entrevistado foi péssima e as perguntas também. Mas dessa escolha adveio exactamente uma clara falta de noção... de Língua Portuguesa, de realidade, entre muitas outras coisas (Acham que também falo mal se isto não estiver com acordo?).

Era uma vez uma jornalista (aparentemente) conceituada por muitos no mundo do jornalismo nacional português. Essa mesma personagem trabalha, de momento, num dos canais de uma televisão nacional privada. Os ordenados dos seus trabalhadores provêm dos lucros das suas audiências, dos patrocinadores, and so on. 
Ora pois que chegou o dia em que esta senhora (uma personagem totalmente fictícia) entrevistou um .... rapazinho bem parecido e com algum poder financeiro. Problema? Nenhum. A entrevista começou por mostrar uma curta reportagem sobre o dia a dia do entrevistado. Parcial ou imparcialmente, retratava uma vida boémia e despreocupada, cheia de dinheiro, carros, mulheres, jóias e coisas que tal. 
Primeiro ponto desta história: ao voltar ao estúdio, o entrevistado munia-se de um fio de prata e diamantes e um relógio que deve ter custado mais do que muitas casas juntas - facto que não importa para a moral desta história. 
No decorrer da entrevista, a jornalista não se escusa em fazer comentários e perguntas, dando a ideia de que "este rapaz é uma pessoa fútil e cheio de massa, que não quer saber da crise e dos portugueses para nada".
Minutos a seguir, surgem vários comentários nas redes sociais: "X devia ter vergonha de ter insultado Y daquela maneira", "Y não esteve bem, mas não tinha o direito de ser humilhado em público"; "X não tem nada que falar porque ganha mais imenso dinheiro e também o deve esbanjar como Y".

Vamos lá ver se percebemos a história toda. Agora com calma.

O entrevistado foi, segundo perspectiva de muitos, um mártir da televisão nacional, porque foi humilhado simplesmente por fazer desaparecer o dinheiro como muitos fazem desaparecer amendoins. 
A entrevistada foi criticada até ao tutano por ter feito esta e aquela pergunta e "ai que inconveniente que ela foi, a expor o piqueno daquela maneira".

Moral desta história? Está tudo errado e as lógicas sociais sofreram uma inversão tão brusca que já ninguém sabe o que é o quê. 

O entrevistado é só mais uma daquelas pessoas que das duas, uma: Nunca lhe ensinaram o valor do dinheiro, ou então está certo que de de onde vem aquele, vem mais e o pode gastar com um sorriso nos lábios enquanto paga um copo aos amigos num qualquer espaço de diversão nocturna. 
A entrevistada não esteve, definitivamente, nos seus melhores dias. Todos temos dias maus, não? Mas será que os portugueses ouvem falar de palacetes e de grandes carros comprados por ela? "Ah e tal ela ganha milhares de euros e não os dá a ninguém". Isto são cá as minhas coisas, mas isso não será facilmente justificado pelo facto do dinheiro ser dela e ganho através do seu próprio esforço e dedicação profissionais?

Pois, bem me parecia.

Trata-se, pura e simplesmente, de uma exposição exagerada e desmesurada, de não saber estar e de não saber o que é um comportamento digno de quem tem dinheiro. Se ajuda ou não, não interessa - Até porque uma empresa com nome de posição sexual torna-se incongruente com solidariedade e compaixão, noções amplamente publicitadas pela mesma. 
O que também é interessante realçar nesta história (é de sublinhar, novamente, que o seu carácter é total e puramente ficcional) é o facto de ninguém ter absolutamente nada a ver com o que a entrevistada gasta ou deixa de gastar com o seu dinheiro, uma vez que (ora esta é complicada)..... É dela. 
Sim, o dinheiro do entrevistado também lhe pertence. A divergência surge na forma de apresentação, na forma de ver o Mundo e no background de cada um de nós e, em última instância, da sociedade em que estamos inseridos. 
No fundo, a moral desta short story tem que ver com o legado que se vai deixar. Será de dinheiro e de carros que precisamos? Ou será de pessoas cultas e cujo contributo intelectual é imenso? Mais uma vez digo (e é isso que me aflige) que julgo que as noções de país, de legado e de continuidade estão a ser completamente corrompidas e distorcidas em favor do "deixa andar, deixa-o viver como quer, somos todos livres, não somos?"

Note to self and all readers: Ver filme "Idiocracy". Se todos tivessem visto este filme, não teriam lido esta pequena história de embalar. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A crítica é cega, surda e muda. E não muda.

Se calhar não me expliquei bem.
Antes de mais, há dois ou três pontos acerca dos meus comentários que quero que fiquem muitíssimo bem esclarecidos. 

Primeiro: Nunca, em tempo ou momento algum, fiz sequer questão de mencionar toda a população de Portugal Continental. Surge então um problema: se a carapuça serve, deixa de ter que ver com aquilo que eu escrevo, para passar a ter pura e simplesmente que ver com o que passa pela cabeça das pessoas.

Segundo: Não fui, de longe, a única pessoa a comentar negativamente este "acto", sendo-me possível, se por teimosia ou estupidez alheia, mostrar comentários e textos de terceiras pessoas a dizer isso mesmo. 

Terceiro: Portugal e a China têm políticas, sociedades e culturas abismalmente diferentes, pelo que não se pode considerar aceitável que, em Portugal, se cuspa para cima de um (ainda) membro do Estado. Sim, na China cospe-se para cima dos pés das pessoas (sim, não fiquem assim tão surpreendidos), mas também se come no chão em cima de uma folha de jornal e também se arrota em pleno restaurante quando se acaba de almoçar. As regras de etiqueta não foram feitas numa mesma língua e, por isso mesmo, não são universais. Posto isto, pergunto-me então se seria normal ver várias pessoas a almoçarem no passeio da Avenida de Berna, de pauzinhos e tigela de sopa em riste? A resposta é, obviamente, não. 

Tal como o choque surge na cara das pessoas que viajam até países francamente diferentes de Portugal, também o choque e a surpresa assolou o meu rosto.
Fiquei completamente chocada com a atitude e com o comportamento do grupo de pessoas que fizeram aquilo. Alguns dizem que é normal. Por favor, não, isso é que não. Se normalizarmos situações como esta, onde é que isto vai parar? 

Neste momento - e acho que se fugiu claramente do cerne da questão na minha  publicação da tarde - Nenhuma acção, seja ela de que natureza for, é passível de ser censurada, condenada ou julgada, só porque é contra o Governo. 

Somando tudo isto, a questão central é que não quis, efectivamente, afectar ninguém, nem tão pouco troçar da desgraça alheia, que bem sei que não é escassa nos dias de hoje. As pessoas estão mal e o país está a afundar-se cada vez mais em dívidas e outros problemas, que, consequentemente, têm danos irreversíveis na vida de muitos. Compreendo, aceito e apoio as teses que contrariam as políticas desmesuradas e descabidas deste actual governo, mas não posso deixar de condenar a tal chamada "forma de desespero", que não passa - e repito - de um acto primitivo e animal. 

Perdoem-me todos os que acham que é cuspindo em cima das pessoas que se resolvem os problemas, mas discordo totalmente disso. Como li hoje alguém: "É muito triste. Mesmo".


quinta-feira, 28 de março de 2013

Isto é que não

Ligo a televisão, mas mais valia não o fazer. Abro o Facebook, mas mais valia não o fazer. Deprime-me. Deprime-me todos os dias. Faz pouco mais de uma semana que voltei de um sítio onde, como se costuma dizer por lá, "a crise não existe", "é uma lufada de ar fresco" sair daqui e ir para ali. Para alguns, o paraíso das oportunidades está a escassas horas de viagem, mas poucos parecem querer perceber isso. Lá vão aviando as contas de supermercado, lá vão contando os trocos para a gasolina, lá vão mais qualquer coisa pequenina, nunca óptima, nunca surpreendente. Estou triste e deprimida com este país. Deveria ser o meu, mas não consigo vê-lo como tal. Dou por mim a pensar como uma outsider: "Portugal? Bem, gosto das paisagens, das praias fantásticas, da gastronomia..." E mais? E mais nada, pelo menos não muito mais. 
Tudo isto está podre por dentro, que nem maçã com bicho. O(s) sistema(s) político(s), o sistema social que há muitos anos se tem vindo a implementar e a (tentar) aprimorar... Tudo. Mas aquilo que na verdade custa mais, é ver como é que a mentalidade se desenvolve mas no fundo, continua a mesma. "É tudo o que eu conseguir meter prá blusa". Desenganem-se. 
Os jovens recém-licenciados e mestres querem empregos de sonho num país que mergulha a 1000 metros numa crise económica profunda. Os mais velhos querem continuar com os seus empregos de sempre, mas aquilo que eles queriam mesmo era saírem safos com uma daquelas reformas chorudas de fazer inveja ao vizinho do lado. 
Sim, talvez esteja a ser demasiado dura com este país, mas ele é duro para mim também e eu quero mais. Considero-me sortuda por ver mais à frente, por saber que há um Mundo lá fora pronto para me acolher. No fundo, acho que sou mais feliz do que muita gente, por ter a percepção que nada acaba aqui, atrevendo-me mesmo a dizer que acho que nada começa aqui. Pelo menos, não neste momento.
Muitas vezes, lá fora, a crise é só mais uma palavra escondida entre as incontáveis páginas de um Porto Editora; é apenas corrente dentro de um gabinete de doutores da psique; é só mais uma. Aqui, é tudo. Tudo gira em volta da crise, e se o Governo tem muita culpa nisso, então os media têm a outra metade. 
Lá fora não preciso de contar os trocos para pôr o meu carro a andar. 
Há quem chame "desertores" a quem emigra. Então mas o que chamar a quem fica? "Lutadores"? "Corajosos"? Depende da perspectiva de cada um, dos desejos e ambições de cada um. Principalmente, das prioridades de cada um. Esta é a verdadeira pátria de muitos, o berço de toda a sua infância e crescimento, o centro das suas origens, raízes, tradições e cultura. Mas punhamos a questão da seguinte forma: Como é que um país pode ser o berço do nosso ser, se de repente nos abandona e nos deixa à mercê de um destino muito pouco risonho? O que é, afinal, o nosso berço, o "nosso país"? No meu entender, isso não existe de uma forma tão rigorosa como as pessoas pintam. Existe, sim, um sítio que idealizamos ser o nosso, ser aquele em que construímos a nossa carreira, a nossa família. Idealmente, que país seria esse? Aquele ao qual nos agarramos por pensarmos que não existe mais nada que não isso? Ou aquele onde sabemos existirem oportunidades e um Mundo novo a explorar? 
Aqui, os ideais estão corrompidos, bem como a mentalidade. 
Eu quero poder ser, quero poder subir na escada profissional pelas minhas competências, e não porque deixei um maço de notas na mesa do chefe ao final do dia. Eu quero poder ir ao supermercado sem olhar primeiro para os trocos que tenho na carteira. Quero poder eliminar a expressão "é isto que me resta" do meu vocabulário corrente. Quero poder rir quando olho para a televisão, ao invés de chorar. Quero poder ser individualista e isso não ser encarado como um defeito. Mas acima de tudo, quero poder ser eu sem que me amarrem as ideias, que me fechem numa redoma de azares e dissabores. Quero tudo. Tudo menos isto.

quinta-feira, 14 de março de 2013

..

People try so hard that sometimes they dont even realize nobody's watching. And that's no worth it. None of it.

Red Flag

There's something called a Red Flag. And you should recognize it from a really far distance. If you don't, you're either just kidding yourself, or being incredibly naive. Or stupid. 

Guess the third's always the right answer.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pretty Woman das Tailândias

Por aqui há muitas. Umas mais pretty que outras, mas há muitas. A prostituição na Tailândia é de uma elegância e de um charme meio kirsch, meio mau gosto. Mas de alguma forma, é manifestamente melhor daquela praticada numa qualquer ruela do Terreiro do Paço, daquelas que vão direitinhas até ao Restauradores, bem à baixa de Lisboa. Por aqui, os russos anafados e de educação rústica exibem-nas para a frente e para trás, umas baixinhas, de cabelo apanhado e roupas daquelas compradas em terceira, quarta ou muitas outras mãos. Outras têm mais requinte. Surgem ao lado de fortes italianos ou suecos e de pernas à mostra. A mini saia de cor berrante vai bem com o top azul petróleo, finalizando com aqueles saltos altos dignos de filmes de erotismo barato. Elas aqui são todas pretty para eles, e mais importante, são todas pagas à semana. As pretty woman vão à praia com eles, jogando volley e bebendo cerveja fresca alegremente. As pretty woman vão jantar com eles aos restaurantes mais caros de Karon Beach, e ficam alojadas nos seus Resorts, nos seus quartos, nas suas camas. Partilham uma longa noite de loucura que se faz entre quatro braços, quatro pernas, duas pessoas. Ou mais, quem sabe. Os seus nomes não se pronunciam Julia Roberts, mas mais valia, depois de tudo aquilo que passam, depois de tudo aquilo que vivem. Estas são pretty por causa do estatuto semanal que, com sorte - ou não -, adquirem junto daqueles que só por cá passam. Eles procuram companhia e elas, dinheiro. Eles dão-lhes dinheiro... Em troca de companhia. Uma semana e tanto, para estes tipos rústicos e extremamente bem apessoados. Eles querem pretty women, eles não querem decadências do Terreiro, nem baixa lisboeta com bónus de HIV. Eles querem companhia e nada mais. Bom, talvez mais um pouco. Por semana. Pago à semana. E elas acedem. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Gerações

Diferentes gerações, diferentes percepções. As noções alteram-se em consonância com o território. Parece que tudo sai do sítio para aterrar noutro mesmo sítio. Noções são noções e apenas isso mesmo. Todos vemos aquilo que queremos ver, e acima de tudo, aquilo que conseguimos ver. Ao sair do terminal de barcos de Macau, deparamo-nos com uma cidade que já foi a nossa, mas já não é. Os resquícios de um Portugal já vão lá longe no horizonte, mas ainda pairam; não chegam é para matar as saudades. Elas são muitas e não é para admirar, uma vez que todas as caras circundantes se apresentam em bico, não são olhos de gente portuguesa, nem sequer ocidental. É um outro Mundo, um outro Universo. Prefiro pensar nele como um qualquer paraíso paralelo, que tem em si o que de mais belo se fez: as paisagens, a multidão ordeiramente caótica, o rio incrivelmente calmo e extenso, as pontes iluminadas.

O horizonte feito de pequenas casinhas e luzes imensas faz com que as saudades sejam mais pequeninas, menos feitas de si próprias, menos intensas. Agarrar tudo o que de melhor temos é aquilo que vale nesta vida. Livrarmo-nos do que nos faz mal - e até do que nos faz menos bem - e apreciar o que podemos, enquanto podemos. Um dia voltamos e quem sabe se voltamos a poder sentir esta realidade? Tudo aquilo que importa é aquilo que se passa aqui e agora, não o que se vai passar amanhã ou depois. Diferentes gerações, diferentes percepções. Se ao menos pudesse passar-lhes aquilo que sinto, aquilo que vejo, aquilo que quero... 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

reticências (...)

Eles fazem parte de um livro invisível. Páginas de sangue, suor e lágrimas. Não, só de muito amor... e talvez um pouco de suor.

Eles fazem parte de um livro invisível. Nele escreveram-se palavras soltas e desreguladas, letras sem nexo, mas sentimentos com sentido. Podem evaporar-se daqui a nada, talvez hoje, amanhã, depois ou nunca. A única coisa que importa é terem sido escritas. Podem querer apagá-las, mas sem efeito. A borracha não chega; nem o corrector tem essa capacidade. A lápis ou a tinta, as palavras estão escritas de qualquer forma. Parecem escritas numa língua quase universal, perceptíveis de forma intangível e por eles apenas. 

Eles fazem parte de um livro invisível. Nunca rasgues as páginas de uma obra que não vais querer esquecer. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

E foste-te um dia, assim...

Há alturas da tua vida que são marcadas por acontecimentos inesperados, levando a consequências sem retorno, a momentos sem igual, a uma qualquer desgraça ou bênção de bradar aos céus. Queres um desses episódios intemporais? Vai atrás deles, percorre-os como se o Mundo fosse acabar amanhã e não penses no que virá a seguir. Não te acobardes dentro do teu próprio conformismo, não te deixes levar por aquilo que te sabe bem, porque um dia vais ser apunhalado por esse conforto, que fora tão bom, que fora tão apaziguante. Vais querer soltar as amarras, vais querer fugir e não aparecer mais, vais querer viver como nunca o havias feito na tua vida. Viveste morto, isso sim. Agora renasceste e sabes que nada é eterno, sabes que o Mundo é teu e tens o poder nas mãos. Não morras antes de viver por favor. As epifanias são coisas raras e teres uma exige que a sigas. A segurança parece ser a maior das armas contra a monotonia, mas na verdade, é o seu principal componente. Leva gozo a viver a vida, não aches que chegar a casa e teres jantar feito é a melhor coisa que te aconteceu no dia. Desafia-te a ti e aos outros. Não sejas mole, não te deixes amolecer por favor. Suplico-te que não. Ganhaste a hipótese de viver outra vez. Não te mates entre lençóis lavados, 'boa noites' sussurrados todas as noites e pequeno almoços levados à cama.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Só mais muitas vezes, por favor

Faz isso só mais ... Muitas vezes, por favor. Beija-me outra vez, ama-me outra vez, cozinha para mim. Outra e outra vez, faz tudo vezes sem fim. Suplico-me que fiques comigo para sempre. Não, mas não quero que fiques comigo por pena, isso é que não. Mete-me nojo que tenhas pena de mim, pena que eu me desfaça em cacos no momento em que te vir sair daquela porta. O sofrimento é uma coisa curiosa, sabias? Só sofres até te lembrares de qual é a razão. Um dia vais acordar e questionar a verdadeira razão de tanto choro, de tanta depressão, de tantos quartinhos escuros nessa tua mente decadente. Sim, toda a tua pessoa é decadente e isso causa-me repulsa. Odeio pessoas como tu, que olham para os outros como pequenos projectos de melhoramento. Como se alguma vez me pudesses melhorar! Sabes bem que sou melhor do que tu e sabes ainda melhor que é por isso que queres virar costas. És demasiado cobarde para admitir que queres ficar, que precisas disto para ser feliz. Não, não me estás a entender bem. Eu não quero que a tua felicidade precise de mim para ser uma só. Eu quero que tu sejas feliz. Sê feliz. Vira as costas e vai-te embora, não quero que tenhas pena de mim. Metes-me nojo, amor da minha vida.

Abstraccionismo da solidão

Nunca sabes aquilo que a vida te propõe. Vais andando até morreres sem saberes muito bem o que estás a fazer e tentar acomodar-te, mas não consegues. Tudo o que tem que ser, será um dia. Mas tu sabes que não é bem assim. Sabes que perdeste quem mais te amou porque desvalorizaste o valor que te atribuíram e agora já é tarde demais. Sabes que amaste mais do que achavas possível, mas perdeste tudo isso para uma juventude de desvairos impensáveis e lógicas desconstruídas. Nunca soubeste muito bem a quem te agarrar, ao que te agarrar, mas foste percebendo que nem tudo é passível de ser agarrado. Muitas vezes vive-se melhor sozinho, pensas tu todas as noites, quando te tentas convencer que uma casa vazia é melhor do que uma cheia. Em que pensas tu todas as noites? 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Atenção: Isto não é um texto de ficção

Casa dos Segredos é um dos temas mais badalados da actualidade em Portugal. É uma pena e isso todos nós sabemos (incluindo aqueles que vêem, que é algo imperceptível para a minha pessoa). O que não sabíamos é que a Casa devia realmente ter mais concorrentes enfiados lá dentro, porque era menos espaço físico português que era ocupado pelas criaturas mais idiotas e insignificantes à face da terra. Dizem que os norte-americanos são burros? Apenas posso então concluir que os portugueses querem tentar igualar-se, superar essa 'idiotice crónica' de que tanto acusam o povo dos Estados Unidos. 
Bem, se até aqui não disse nada que contribuísse para a vossa felicidade, então parem de ler porque não vai decerto melhorar. O que a TVI está a criar é sim, uma problema social crónico, ao permitir que personagens cujos nomes são pouco pronunciáveis, se pavoneiem em frente das câmaras e se tornem conhecidas caras do povo português. Revolta-me saber que as audiências desse 'programa' foram altíssimas e revolta-me ainda mais saber que houve mais candidaturas para o mesmo, do que para o ensino superior neste ano de 2012. Mas mais do que isto, revolta-me saber que existem palhacinhos ainda mais disfarçados a conduzirem e a andarem pelas ruas de Lisboa e arredores todos os dias. Ou começam a aceitar mais pessoas dentro da Casa dos Segredos, ou eu deixo de sair de casa porque não me sinto segura a andar na rua ao lado de verdadeiras personagens. 
Passava pouco das nove da manhã e o céu estava nublado e o ar altamente húmido. Deixei-me ir pelo mesmo caminho que sigo todos os dias para o trabalho e eis senão quando surge um carro escuro que ia passar ao meu lado esquerdo. Graças a um outro aspirante a habitante com segredos, fiquei sem capa de retrovisor esquerdo e acabei por nunca mandar arranjar, já que ainda servia perfeitamente o seu propósito. Voltemos ao meu trajecto da manhã. Ora pois que a dita condutora bate violentamente naquilo que restava do meu retrovisor. Ao assistir de perto ao acontecimento, apitei durante um tempo considerável, até que se decidiram a dar a cara. Para meu espanto, aquilo que saiu da boca daquela senhora extremamente educada e bem formada, foi "Devia ter ido mais chegada à direita", ao que eu respondo que realmente era impossível, pois incorreria no risco de atropelar os transeuntes que normalmente passam por aquele troço de estrada. Qual não foi o meu espanto quando de seguida ouço: "É melhor seguirmos os nossos caminhos, senão vou ter que me chatear". 

Equipa de produção da Casa dos Segredos, por favor, peço-te encarecidamente que aceites esta ilustre personagem no teu programa porque eu tenho medo, muito medo que a mesma doença crónica (a estupidez, para quem não percebeu) afecte os restante moradores daquela localidade. 

Obrigada!

domingo, 7 de outubro de 2012

Sem título. Sem rumo.

Conheci alguém que me fez esboçar um sorriso. Depois cresci e parece que perdi essa pessoa entre o trânsito do crescimento, entre as colinas da desilusão. Perdi-te para alguém mais forte, mais capaz, mais adulto, mais qualquer coisa. Atrevo-me até, a dizer que te perdi com o crescimento. Depois de ti, só saudade, só mágoa, só um intenso ardor interior que me faz querer voltar a ser criança, a andar naquele baloiço de madeira velha. Só mais uma vez, faz-me sorrir mais uma vez. Por favor faz para eu poder continuar a morrer. A crescer, quero dizer.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Obrigada

Esbarraste contra mim em mais uma noite de bebedeiras imensuráveis e adolescências muito perdidas pelo aproveitamento daquilo que julgamos serem experiências inesquecíveis. Mesmo a cinco anos de distância, conseguiste encontrar-me e insististe. Nunca desististe de me conhecer, de saber quem eu era, como me comportava, como reagia. Tudo acontece com uma naturalidade na qual eu não me revia. Percebi que não te entrava na cabeça, não mexia mesmo contigo. Tu não me interiorizavas. E sabes que mais? Ainda bem, porque a marca que deixaste sarou rápido, se é que alguma vez deixou ferida. Talvez tenhas sido importante, ou não. Prefiro pensar que sim, mas não coloco de lado o facto de teres sido apenas mais uma pessoa que passou e não marcou. Eu quis que marcasses, mas tu tinhas que chegar e estragar tudo de tal forma, que deixaste de ser quem eras, deixei de te ver como quem sempre foste e passaste a ser um outro alguém, desconhecido, distante, despegado. De qualquer maneira queria agradecer o esforço inicial, a vontade demarcada de um encontro marcante. Desculpa se te desiludi, se não te marquei como querias, se embarcaste numa aventura para um rumo que nunca quiseste que fosse o teu. Só quis fazer-te feliz como tu prometeste tentar fazer-me.

Obrigada de qualquer maneira, há sempre o início para recordar.

Obrigada.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Precedências

Diz-me para onde queres ir e eu levo-te, só não me deixes aqui ao frio sem saber porque desapareceste. Um dia segui-te, pus-me em biquinhos de pés e olhei-te nos olhos. Congelaste a tua expressão, o teu olhar, cerraste os lábios. Fizeste de conta que eram a expressão, os olhos e a boca de uma qualquer outra pessoa. E sabes que mais? Eu não sei porquê. Todos os acontecimentos costumam ser consequências de outras situações que se precedem umas às outras, mas tu não tens razão, não tens consequência nem precedência. És apenas assim. Insano da cabeça aos pés sempre foste, mas agora ficaste-te pelo caminho em direcção à perdição total. Não fiques triste, ainda fui a tempo de resgatar a perfeição que deixaste para trás. 

Monopoly

Andamos todos no jogo da incerteza. Todos os dias lançamos o dado e todos os dias perdermos, recuamos casas e casa a perder de vista. Já quase no fundo do tabuleiro, lançamos o dado novamente. Andamos três casas para a frente. E dez para trás novamente. Jogamos todos num beco sem saída e ficamos cansados sempre que pensamos qual vai ser o resultado. Eu já sei, eles já sabem. Todos vamos perder. A saturação é um estado eminente, se não é já constante. Tudo aborrece a alma humana. Nós já não somos almas humanas porque já nos aborrecemos demais. 

Eu só queria poder saber que tudo tem uma razão de ser, mas o beco sem saída tira-me a esperança de um rumo a seguir. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Estava longe de ser feliz, mas nunca tinha pensado nisso antes. Um dia olhou à sua volta e percebeu que estava no meio de uma multidão. Mas estava sozinha.

domingo, 12 de agosto de 2012

Como sempre

Somos todos assim. Feitos de uma mistura de gorduras lascivas que se derretem na noite secretiva. Os corpos desfazem-se com o calor, mas são feitos de uma matéria tão especial, que voltam ao lugar em apenas alguns minutos. Frios e brancos, voltam a ser frios e brancos como sempre.