quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Let's give it to Annie

Anne Hathaway está cada vez mais versátil nos papéis que tem vindo a desempenhar. Gostava dela, mas entretanto armou-se em boazinha em 'Alice in Wonderland', e acabei por ficar aborrecida. Depois veio a sua fase de predadora sexual, com 'Love and Other Drugs' e eu voltei a apaixonar-me pela sua forma de representar. Juntamente com Jake Gyllenhaal, lutam por uma boa qualidade de vida (se é que assim se pode chamar) de uma mulher com Parkinson, que é representada pela então inovadora e surpreendente nova faceta da actriz Anne Hathaway. Depois de muito choro compulsivo e lenço usado, achei que estava na altura de ver uma coisa assim mais ligeira, menos cheia de drama e melancolia. Ai.. quão enganada estava eu... 'One Day' acabou por ser o romance mais bonito e mais dramático que alguma vez vi. No final recomeçou o choro (quando virem o filme, vão perceber que não é defeito meu) e eu continuava sem perceber bem onde estava a beleza que tanto me havia entusiasmado o filme inteiro, ou seja, não sabia distinguir que parte ou que característica haveria no filme para eu ter gostado tanto. E finalmente percebi: Não é apenas uma coisa, são várias. Estão a ver as paisagens que todos elogiam em 'Eat, pray and love'? E as pracetas e sotaques europeus, próprios de todos os filmes de espionagem onde existe gente francesa e britânica? Bem, e um pouco como em todos os dramas românticos, não deixa de faltar muito amor e coisas que tal. E não é que quando o espectador já está farto de tanto mel, a coisa apimenta com um pouco de erotismo fugaz, festas e bebedeiras? A início, a música parece ser um dos carrascos do filme, por ter traços de melancolia e tristeza, mas de repente, começam a ecoar algumas boas músicas conhecidas, como uma ou outra dos soon to perform at Lux Frágil, Fatboy Slim. Para tornar o visionamento desta peça num momento delicioso de cinema, falta ainda dizer que a linha cronológica traçada em '500 Days of Summer' também existe, o que impede que o filme se torne vazio, sem sentido temporal - não posso deixar de dizer que a caracterização das décadas representadas, também está brilhantemente feita.
Bem, correndo o risco de desembuchar dois ou três spoilers, deixo-vos apenas o trailer e garanto que se estiverem virados para o gasto desmesurado de kleenex, então 'One Day' é o drama ideal.




terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Diz-se que é uma espécie de Apartheid


Israel está a ver um retrocesso no pensamento social dos seus cidadãos, com o grupo de judeus ultra-ortodoxos a criar cada vez mais conflitos. Mais grave do que a vontade de afirmação por parte de um grupo, é aquilo que esse grupo quer afimar. "Os fundamentalistas querem as mulheres sentadas na parte de trás dos autocarros, que caminhem em passeios específicos e façam compras em determinadas horas, práticas rejeitadas pela principal corrente judaica", avançou a Euronews. Quando ouvi as notícias mais recentes, não estava a compreender muito bem o que estava a ser dito e acho que em grande parte, porque não queria acreditar que tal podia acontecer em pleno século XX. Um grupo de fundamentalistas religiosos diz ter vontade 'legítima' que as mulheres sejam segregadas socialmente, dando a entender que são portanto, o sexo mais fraco, quase insignificante. Parece que o novo método de segregação dos ultra-ortodoxos é feito por via da vassourada, atitude com pés e cabeça, com certeza. Seria de esperar que hoje em dia, este tipo de pensamentos fossem já impensáveis, devido aos avanços sociológicos que têm ocorrido nas últimas décadas. Uma das etapas históricas a não seguir como exemplo, deveria ser o Apartheid e sinceramente, foi para isso que me remeteu automaticamente, estas recentes manifestações por parte dos fundamentalistas. Para além da marginalização da mulher, outros ideais muito pouco característicos daquilo que conhecemos como 'democracia', se erguem. O nazismo e a consequente opressão dos judeus foi trazida até ao presente, através de um 'teatro' muito pouco feliz, por parte desta facção mais extremista dos judeus. Ora que o cenário era o seguinte: Crianças vestidas com as indumentárias usadas pelos judeus nos campos de concentração de Hitler, juntamente com a típica estrela que os distinguia. Na minha opinião, esta foi a forma mais triste e agressiva de manifestação de interesses e ideais. Está a causar grandes tumultos no seio da população israelita, que se julgava relativamente livre - dentro do possível e excluindo a luta eterna com os palestinianos - e a criar um sentimento de insegurança e principalmente, de retrocesso social. A gravidade desta situação está precisamente nesse tal retrocesso social, parecendo-se muito com o Apartheid. Sempre existiu esta facção mais radical, mas nunca tiveram tanta importância como hoje em dia e isso é que é preocupante, porque implica uma diminuição notória da situação das mulheres, coisa que está mais do que estabelecida e estabilizada em quase todos os países livres. Mulheres ocidentais vêem-se no meio de uma encruzilhada, entre o direito de terem a liberdade que sempre tiveram e o medo e insegurança de viver no seio de uma população dividida pela religião. Este problema pode até ser visto de uma perspectiva 'irónica', tendo em conta que todos os judeus sofreram com o regime nazi e todos deveriam ser complacentes com a liberdade e direitos aplicáveis a todos os seres humanos, mas na verdade, os ultra-ortodoxos estão, ainda que de outra forma e através de base ideológicas diferentes, a segregar e marginalizar na mesma. 
As minhas conclusões levam-me a pensar que existem um padrão quanto à marginalização. E será que existe mesmo?
Uns distinguem, e condenam 'raças', em favor do ideal de uma 'raça pura' ou em favor da 'raça branca', outros marginalizam e segregam um dos sexos, por o considerarem inferior. Continuam sem encontrar um padrão?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Serviço público português, o novo Alentejo

Dia 14 de Dezembro bloquearam-me o carro perto da Av. de Berna. Obviamente mais que chateada com o sucedido, fui correndo até à dita viatura, para poder pagar e seguir para a faculdade. Nisto, leio: "60€" assinalado como preço a pagar pelo desbloqueamento, sem reboque. Ora pois assim fiz. Liguei para o número que o grande papel autocolante amarelo indicava e o atendedor automático lá me disse que sim, que o meu carro iria ser rebocado dentro de alguns minutos. Esperei, esperei e esperei mais um pouco (mentira, foram 45 minutos), até que a carrinha da imponente EMEL chegou. Nisto, preparava-me para pagar os ditos muito mal empregados 60€ de multa, quando o senhor me diz "são 90€, minha senhora" e eu boquiaberta respondi "eu peço desculpa, mas só tenho mesmo os 60€, que era a quantia que estava escrita no papel". "Pois, mas são mais 30€ de multa de falta de pagamento" e assim, apreenderam-me a carta de condução (e já aqui me questiono sobre que autoridade têm para o fazer), dando-me uma guia para poder continuar a conduzir e disseram para depois pagar e levantar a carta na 'MINHA ÁREA DE RESIDÊNCIA'. "Sintra", pensei. Para que não restassem dúvidas, liguei então para a conservatória de Sintra e de seguida, para o registo. Nunca ouviram falar de apreensão nenhuma por parte da EMEL e que não era nada com eles. Posto isto, liguei para o número que a caríssima empresa de pagamento de Lisboa pomposamente exibe nos seus panfletos e declara estar disponível durante todo o dia, até às 18 horas. Encerrando para hora de almoço às 13 horas, liguei ainda da parte da manhã, para poder esclarecer tudo e resolver até ao final do dia. Na verdade, deviam tirar a palavra "atendimento" do horário, porque às 12.30 horas liguei cerca de cinco vezes e ninguém me atendeu, o que só me faz pensar que o almoço dos caros funcionários começa bem mais cedo do que as horas estipuladas. Não tendo conseguido resolver o meu problema, decidi ligar à tarde, por volta das 17 horas. Nessa altura atenderam-me e uma senhora muito pouco educada e muito pouco prestável, informou-me que deveria ir buscar a carta ao 'GOVERNO CIVIL da MINHA ÁREA DE RESIDÊNCIA'. Ora pois que nunca existiu um governo civil em Sintra, portanto insisti que a informação que me estava a ser dada, era errada. Nada consegui mudar, porque a senhora repetiu tudo, como se de um robot se tratasse e como se estivesse a ler algo e não a esclarecer um utente, que é para isso que certamente lhe pagam - e ao que parece, para almoçar mais cedo também. Assim sendo e sabendo que a senhora não tinha em nada contribuído para a resolução do meu problema, recorri à internet e pesquisei por 'governo civil lisboa', pelo que me apareceu um site com dois números de telefone: um da própria sede do governo civil, e outro de um outro posto que trata somente de casos rodoviários. Assim, liguei de imediato para o segundo número do site e o senhor prontamente me indicou o caminho para lá e o horário de atendimento. Fechava às 16 horas e eu cheguei às 15.30 horas, mas mesmo assim tirei senha, esperei a minha vez e fui atendida, unicamente para receber o papel que me indicaria quanto e onde pagar a dita multa. Os CTT eram o local indicado para pagamentos em dinheiro e então lá fui. Entrei numa porta a uns escassos metros e deparo-me com um cenário muito próprio dos serviços públicos: 4 guichets de atendimento: um vazio e 3 deles com funcionárias a trabalhar. Ora pois que havia senhas para determinar a vez de cada um na fila, mas na verdade, era só uma questão de ordem de chegada. Apenas uma das senhoras estava a atender, enquanto as outras duas falavam sobre unhas e pés e mais umas coisas que não apanhei. E lá estava eu, a queimar tempo com mais de dez pessoas à minha frente e duas senhoras a queimarem o seu, com conversas de pés e unhas. Entretanto já passava das 16 horas e o levantamento da carta teria que ficar para outro dia. Conheço - pessoalmente e outros só de vista - vários funcionários públicos que se matam e esfolam a trabalhar para servir as pessoas e para as atender devidamente, mas depois, caem-me casos destes na sopa. 

Tenho outra história muito engraçada, que não me aconteceu uma só vez, mas sim umas três ou quatro, portanto presumo que já seja praxe da casa. É muito raro ir ao centro de saúde e quando vou, é para ir buscar receitas que foram ou antibióticos para a amigdalite própria de todos os invernos. Então isto é o que se passa: São mais ou menos 15 horas e a sala está vazia, os murmúrios por trás do balcão são a única coisa audível. Aproximo-me do dito balcão e a senhora diz-me "Tem que tirar uma senha e aguardar a sua vez" e eu digo "desculpe, mas não está cá mais ninguém..." e ela repete "tem que tirar uma senha e esperar". Faço o que me mandam, mas na minha cabeça, continua a ecoar a minha próxima resposta: "mas não está aqui ninguém para ter que existir uma ordem à base de senhas!". Calo-me, tiro a senha e espero agora a minha vez. Falam da filha que está constipada e que hoje não foi à escola, do marido que tem trabalhado muito e que ontem estava frio e a porta do centro esteve aberta e que era por isso que estavam todos a tossir. A sala continuava vazia e assim continuou até que resolveram chamar-me quando a conversa já estava a saturar. Lá fui e lá me atenderam, a muito custo. 
E assim funciona um dos serviços públicos mais importantes de Portugal. Por meio de senhas que têm obrigatoriamente de ser distribuídas... pela única pessoa que está na sala. 

O tempo que demoraram a ler estes textos, não foi nem perto daquele que gastei a conduzir, telefonar e conversar com pessoas que dizem "servir a população portuguesa", quando no fundo, estão só sentadas, há espera que o tempo passe e que chegue a hora do 'ir embora'. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Vamos brincar às políticas em Portugal

Ás vezes questiono-me sobre quanto da língua portuguesa os dirigentes de determinado partido sabem. Na minha modéstia de pessoa interessada pelo vocabulário português e com aquilo que é possível fazer com ele, acho que certas coisas começa a cair no ridículo. Esse tal partido tem um novo cartaz que diz o seguinte: "A Troika manda ROUBAR AO POVO E DAR AOS BANQUEIROS". E agora pergunto se saberão o que quer dizer roubar. A liberdade de expressão é um dos pontos vitais para o funcionamento de uma democracia, mas então também é preciso que as pessoas ganhem noções e deixem de 'expressar' tudo o que lhes vai na cabeça, porque liberdade de expressão é apenas o meio utilizado para a troca de conhecimentos, ideias e fazer com que se tomem decisões através do debate e da discussão. Bem, isto então para explicar que começa a ser realmente inacreditável continuar a ver posters e cartazes com frases de apoio a uma coisa que nem sequer consegue existir, dadas as circunstâncias económicas.
Outras vezes, ponho-me só a pensar "será que pensam ser possível implementar os seus ideais?" Sei que a diversidade partidária é um factor positivo, mas a pluralidade polarizada não o é.
Este último palavrão é a definição daquilo que melhor caracteriza a política portuguesa. Em Portugal, se  X e Y são rivais, nunca será mantido um acordo ou qualquer tipo de parcerias políticas, pois o que conta é quem manda e não o que essas mesmas pessoas propõem e fazem. Aqui, não há possibilidade de coligações entre Bloco de Esquerda e PSD ou PS, mas curiosamente, é com esse mesmo tipo de coligações que funcionam muitos dos governos europeus. É realmente impossível adorar todas as medidas de austeridade impostas pelo actual governo. Mas por outro lado, não percebo muito bem porque é que existe esta necessidade de resmunguice e de constante desacordo entre os partidos políticos de Portugal. Esta pluralidade polarizada tem muito que se lhe diga, mas só se percebe bem lendo um famoso livrinho do Hallin e do Mancini, que vem desafiar a conhecida teoria dos seus antecessores. Os autores fazem um estudo comparativo - considerado um dos melhores na área - sobre essa dita pluralidade e como as coligações e entendimentos resultam bastante melhor do que a luta de um ideal utópica sob a forma de discórdia constante. 

Abaixo, deixo-vos então o tão politicamente correcto cartaz do tão conhecedor da epistemologia das palavras Bloco de Esquerda e acaba a chamar ladrões a pessoas que de momento, controlam as finanças de Portugal. Na verdade, tudo isto se parece muito com jogos de tabuleiros, daqueles que entretém e em que existem aliança e inimigos e lutas pelo poder. E assim se faz política em Portugal.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Criação de novo partido em 2012

"Duzentos militantes do Bloco de Esquerda vão abandonar o partido e prometem formar uma nova força política", adiantou a RTP Informação no passado domingo. Ao ser entrevistado, Gil Garcia, o líder do movimento, mostrou-se insatisfeito com as políticas internas do BE, mais especificamente de Francisco Louçã.
Para ser sincera, nem sei bem que reacção tive enquanto assistia à entrevista, pareceu-me surreal demais. Primeiro, porque acho que os bloquistas já estavam um pouco mais à frente, no que toca a credibilidade política (até já tinham representatividade parlamentar!) do que estavam há uns anos, e depois, porque não sei muito bem onde é que Gil Garcia quer chegar com esta ruptura interna. Justificava-se se estivéssemos a falar do PS, que tem mostrado ter das mais variadas linhas de pensamento, dependendo da pessoa; mas com o BE não se percebe. A bem da verdade, nunca foi um partido que alguém alguma vez esperasse ver a dirigir o país, mas lá tinham os seus ideias bem demarcados e sempre me alegrava ver que não mudavam a sua posição, independentemente de mudanças a si exteriores (não, calma... Isso é o PC). Louçã foi acusado por Garcia de ter apoiado Manuel Alegre nas últimas eleições presidenciais, mas então, quem se esperaria que ele apoiasse? Ninguém? Bem, na verdade é mesmo isso que o líder do movimento Ruptura/FER desejava, que o BE se tornasse num Partido Comunista, só que com pessoas mais novas na liderança. 
Agora pensemos no que pode nascer a partir da mente deste idealista tão ferrenho. Será que vai avante com as suas teorias e acaba por conseguir mais do que Louçã conseguiu em anos de luta pelo mínimo de credibilidade dentro da esfera política séria (ou não) em Portugal? Não estou aqui a tomar partidos e a denunciar as minhas escolhas políticas pessoais, apenas a tentar descobrir alguma lógica e coesão no plano de Gil Garcia para 2012. 
'Acusando' Louçã de ter apoiado o socialista nas presidenciais, pouco faltou para que Garcia o chamasse de vendido, mas é um facto que as coligações devem ser bem escolhidas e na minha opinião, isso é uma das principais lacunas no sistema político português. Ainda que todos tenham vontade de fazer como na primária e mandar a chanceler alemã encostar-se à parede de costas voltadas e só voltar para a mesa quando se aperceber das barbaridades que tem feito, a verdade é que na Alemanha, existem fusões partidárias que seriam completamente impensáveis em Portugal. Quase todos os partidos têm representatividade parlamentar e no que toca a governar, quase todos opinam e votam sobre leis e acordos a fazer. 
Um dos principais problemas de Portugal é precisamente termos um sistema pluralista polarizado. Pondo isto por miúdos, quer dizer que temos sempre os mesmos partidos no poder e a escolha nunca diverge muito de um para o outro. Na prática, ambos têm aquilo a que chamamos ideais de 'centro-direita'. Outra das características deste sistema, é a não concordância constante entre os membros das assembleias e do parlamento. Nessas situações, o que conta são os partidos a que pertencem e as rivalidades que existem e nunca são as ideias e propostas que têm. Neste país, não está contra ou a favor de ideias, está-se contra e a favor de pessoas.
Num Portugal ideal, as propostas colocavam-se numa balança e todos os partidos decidiriam de acordo com os prós e contras da proposta, e não de acordo com quem a fez. 
Outras das questões feita pela jornalista que entrevistou o líder da FER, incidiu sobre possíveis coligações poderiam ser feitas com suposto novo partido a formar. Garcia respondeu 'PCP' e eu pergunto-me que frutos dará essa fusão. Uma das respostas mais realistas será 'Nenhuma', tendo em conta a estagnação em que os comunistas se encontram. Ainda que os militantes e apoiantes do PC tenham a função de equilibrar a balança de votações nas eleições, continua a parecer-me uma péssima escolha por parte de Garcia, mas ideais são ideais e ao menos alguns continuam a segui-los à risca... E talvez até demais.
Hoje em dia, em vez se pensar nos partidos e nos deputados por ideias e teorias, começou a pensar-se em termos dos 'mais corruptos para os menos corruptos'. E assim se faz política em Portugal.

Esperemos para ver no que resulta esta divisão do Bloco de Esquerda e em 2012 teremos então mais um partido político à mistura.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saramago não é o fim

Não pude deixar de reparar que fui ligeiramente 'categórica' quando disse que em Portugal não se faz quase nada bem feito. É mentira. Aliás, não é, mas não posso deixar de pensar que posso ser mal interpretada ao dizê-lo, porque na verdade, todos os dias vejo bons projectos a serem pensados, delineados e a serem quase levados para a frente, para passarem da teoria à prática, mas isso depois acaba por não acontecer. 
Acaba por não acontecer porque o governo não tem dinheiro porque está em crise e por consequência, as organizações privadas que costumam financiar projectos do género, também não o fazem porque 'estamos em crise'. Não tendo nada a ver com isto, não posso deixar de dizer que acho que existe uma área em Portugal que está a evoluir brutalmente - tanto em qualidade, como em quantidade. A literatura. Nomes como Valter Hugo-Mãe, Rentes de Carvalho, Pedro Peixoto ou Pedro Paixão inserem-se em géneros completamente diferentes e muitas vezes mesmo antagónicos, mas na minha opinião, não deixam de ser todos autores sublimes, por razões diversas. Rentes de Carvalho é um dos escritores emigrantes portugueses que melhor descreve Portugal a partir de uma vertente muito pouco discutida: o interior do país. De Valter Hugo-Mãe, que não se espere uma literatura light porque não o é. Não me considero no direito de 'catalogar' os escritores que mencionei, só de delinear a minha opinião sobre os mesmo e filosofar sobre as vertentes que acho mais interessantes em cada um. Recentemente, li 'Sinais de Fogo', de Jorge de Sena e ainda hoje, não acredito que tenha sido escrito na altura em que foi, dentro do contexto social e político em que foi. O autor fala da guerra civil de Espanha, de sexo com amor, de sexo sem amor, de pensamentos próprios de um adolescente incompreendido por adultos demasiado velhos, de Coimbra ter quase a mesma importância que a capital Lisboa, do significado de 'estudar fora' ser sempre dentro. 
Fala-nos de uma forma tão humana e tão literária ao mesmo tempo, que é difícil não nos colocarmos ao lado do narrador e não pensarmos "eu também falo assim de vez em quando". Concordo com a teoria de que não fica bem colocar palavrões em obras literárias, mas Jorge de Sena consegue escrevê-los de uma forma tão utilitária, que perde o sentido feio e nojento que é de costume incutirmos. Em suma, consegue fazer com que os jovens se identifiquem e os mais leitores mais velhos retrocedam no tempo e se apercebam que ser adolescente não pode ser esquecido e mantido na penumbra de um passado distante.
Dantes não gostava de literatura portuguesa. Tinha um preconceito estúpido que ainda estou para saber onde nasceu - começo a desconfiar que foi no secundário, quando me apresentaram grandes autores e obras portugueses com uma falta de entusiasmo gritante. Achava que tudo o que era escrito em português tinha de ser escrito daquela certa maneira e com aquele estilo específico, até que abri os meus horizontes e me apercebi que a literatura portuguesa não acabou em Saramago ou Sttau Monteiro. A literatura portuguesa continua e muito bem, continua a avançar e se as organizações e o governo quiserem, de vento em popa. E se a crise também ajudar, claro.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Portugal tem publicidade que dá vontade

O que ainda por cá funciona

Um bocado em jeito do que uma amiga minha publicou no facebook, pus-me a pensar no quão fantásticos são os anúncios e mesmo o ramo da publicidade em si. Estive a pesquisar anúncios antigos que tenham dado que falar, mas não encontrei metade deles. Cheguei à conclusão que os portugueses têm realmente jeito para aquela monstruosa indústria que é a publicidade. Chato nos anúncios televisivos são as circunstâncias em que são vistos e a pouca atenção e admiração que os telespectadores, em grande parte devido à enorme percentagem de má publicidade que se faz (tomemos como exemplos os anúncios a detergentes de roupa e louça, lixívia e tantos outros produtos de limpeza e cuidado doméstico). Sei que o target é um dos principais pontos a ter em conta durante a produção de um anúncio, mas a verdade é que muitas vezes, a originalidade se sobrepõe à utilidade e os anúncios tornam-se apelativos só por isso mesmo.
Entretanto, é importante dizer que a originalidade não advém só dos produtos em si, mas sim de muitos outros factores em que é engraçado reparar quando vemos um anúncio. A indústria de publicidade (neste caso, televisiva) em Portugal tem evoluído em grande escala, nos últimos anos e estranhamente, tem a ver mais com as marcas e empresas em questão e não tanto com as campanhas por si só. Isto quer dizer que se pode 'catalogar' aquilo que considero bons anúncios pela marca/empresa que representam. Sumol, EDP, as cervejas e as redes portuguesas Sagres, Super Bock e Vodafone e Optimus têm tido das melhores campanhas publicitárias da últimas décadas. Não podemos focar-nos tanto nos actores nem na marca que é publicitada, mas sim no cenário onde é filmado, o diálogo que é usado e por último, a música que é escolhida. Nestes casos particulares, a música tem tido um efeito bastante positivo para o sucesso. Outra das vertentes publicitárias a que devemos prestar especial atenção pela originalidade com que são feitos e pela forma como são nus de qualquer preconceito, é a publicidade institucional.

Abaixo, deixo-vos dois links de anúncios que já devemos ter visto e revisto (talvez com bastante enfado) na televisão portuguesa e que acho simplesmente geniais, cheios de vida, de conceito e de ideais que valem a pena. Tratam-se se um anúncio da Super Bock e de um anúncio institucional, a favor do uso do preservativo, respectivamente.

Afinal, os portugueses ainda têm força de vontade, vontade de fazer bem, vontade de ver bem feito e vontade de trabalhar, de se esforçarem para que a originalidade deixe de ser só um meio de atingir um fim e começar a ser esse mesmo fim.

É umas das grandes coisas que funciona neste país onde poucas coisas funcionam.






segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Aquele que queria menos que nada

Porque é que todos os dias queremos coisas diferentes e formas diferentes de ver as mesmas coisas? As coisas são assim e a culpa é nossa. É nossa de as querermos mudar à força e é nossa de nos preocuparmos de mais. Um dia destes ele gostava de não se preocupar. Sim, virar as costas a tudo e simplesmente desligar. Gostava de pegar numa mochila e passar a Ásia a pente fino. Exactamente, de uma ponta à outra. Há qualquer coisa naquela calmaria que o intriga, que o faz querer perguntar a pessoas que não lhe sabem responder. No dia em que desligar, desliga para ti, para mim, para ela e para todos os outros, desliga para o mundo e com o mundo. Vai deixar de se inquietar com notícias sobre catástrofes, de se animar com os novos produtos para estética masculina que e de se preocupar com este ou aquele, que perdeu o gato na árvore, o cão debaixo do carro e o coelhinho na panela. 
Se ele pudesse, fazia como o tipo de 'Café Instantâneo' de Pedro Paixão e "zangava-se. Isolava-se. Passava a não ter relações. Passava a ser um nobre eremita, sem relações íntimas nem ambições. Qualquer ambição sugere-lhe logo a preguiça e a certeza da derrota merecida. Se pudesse tornava-se irascível, sarcástico e impossível de aturar. Em vez de não o convidarem para não se lembrarem dele, passavam a não o convidar por se lembrarem demasiado bem dele. Queria passar a sofrer da solidão de não querer."

domingo, 4 de dezembro de 2011

As palavras certas pela boca errada

O Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Alexandre Miguel Mestre disse num qualquer sábado passado que os jovens portugueses deviam emigrar, sair da sua "zona de conforto". No fundo, o discurso é verdadeiro e assenta em factos reais, para além de ser incrivelmente actual. Existe só um pequeno aparte: saiu pela boca errada. 
Supõe-se que Alexandre Miguel Mestre já tem dedos de testa suficientes para saber que é impensável fazer uma afirmação pública daquele teor. Hoje em dia fala-se em troika, em austeridade, em crise económica, em instabilidade da União Europeia e todas as outras desgraças com que tantas vezes somos presenteados no telejornal. Ainda dentro do tema da crise, mas para que o assunto não cansasse os portugueses, o responsável da Juventude e do Desporto decidiu que o seu discurso deveria incidir precisamente na Juventude (e não tanto no desporto, pelos vistos). 
A verdade é que os jovens portugueses (e falo por mim também) enfrentam graves problemas quando chega a altura de arranjar um emprego e isto está presente em várias situações. Muitos dos sistemas universidade-1ºemprego não estão minimamente bem estruturados e os cursos de ciências sociais e humanas são, no geral, um bom exemplo disso. Para se adquirir a carteira de jornalista, é necessário fazer 12 meses de estágio curricular (que se pressupõe ser feito no final da licenciatura), mas as coisas não se processam exactamente dessa forma.
Primeiro, porque uma das coisas mais difíceis hoje em dia é arranjar um estágio (remunerado ou não), porque as redacções, cadeias de televisão e estações de rádio já estão atafulhadas de gente. Mas este não é o ponto fulcral do meu comentário. O meu comentário incide especialmente sobre casos em que a licenciatura não foi de Ciências da Comunicação ou de Comunicação Social. Tirei Línguas, Literaturas e Culturas e estou a fazer o mestrado de Jornalismo. Supõem-se então que também terei um estágio obrigatório de 12 meses, mas na verdade, preciso de um de 18 meses para estar apta a ter carteira de jornalista. O ponto essencial é este: quem, no seu perfeito juízo, vai colocar uma jovem aspirante a jornalista sem um curso ligado à área, a estagiar? Ninguém. E esse é precisamente um dos problemas hoje em dia, determinadas regras, burocracias e passos a seguir que não fazem sentido e na minha opinião, precisam de uma reestruturação para funcionarem a 100%.
Em Portugal, ou se é o melhor finalista do curso X ou Y, ou se conhece o presidente de um qualquer tipo de órgão ou associação importantes. Realmente é verdade o que o Sr. Secretário disse, concordo plenamente. Mas aí está a diferença. Eu não faço parte de um governo que gere um país em crise. Eu faço parte de uma geração pouco apreciada. Lá fora as coisas funcionam de outra maneira. Aliás, basta que funcionem para se notar a diferença. Este país não deixa que os mais novos dêem ideias e principalmente, que sejam pro-activos. Lá fora toma-se atenção a ideias pioneiras, a projectos ambiciosos e a novas políticas de trabalho e de investigação. Cá dentro faz-se o que se pode e o que se pode fazer hoje em dia não chega para essas pessoas ambiciosas e com bons projectos para apresentar. Por isso sim, concordo. Vamos para fora deixar que nos ajudem a tornar as nossas ideias realidade. Isto sou eu que digo, mas não aconselho que o Sr. Secretário de estado da Juventude e do Desporto volte a mencionar esse assunto, porque será a morte do artista.
Uma coisa sou eu, que posso passar bem por jovem desempregada revoltada, outra coisa são eles, que têm o dever de tentar não agravar a situação.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Melhor na tela que no papel

Está bem que a obra conjunta de Charles Dickens lhe valeu um lugar no mundo académico das línguas e das literaturas anglo-saxónicas um pouco por todo o mundo, mas neste caso, o mérito é do realizador de cinema. Alfonso Cuáron adaptou a obra 'Great Expectations' para cinema, em 1998.
Desde 1917 que vários cineastas adaptaram o título para a película, mas a melhor das interpretações - que não é necessariamente a mais fiel - é mesmo a de Cuáron. O realizador juntou a sensualidade de Gwyneth Paltrow e a ingenuidade da personagem de Ethan Hawke e conseguiu um filme que dá prazer ver e vontade de rever vezes sem conta. 
Este é um dos raros casos em que o filme supera o livro e acho que neste caso, em grande escala. Gwneth Paltrow (Estella) personifica uma elegante e inteligente mulher, cheia de boas maneiras que a sua 'encarregada' lhe incutiu e ensinou. Regras de boa etiqueta aliadas a uma educação classico-europeia rígida durante a infância e adolescência tornaram Estella numa mulher com poucos amores e muitos dissabores. Ethan Hawke encaixa que nem uma luva na personagem de Finn, criada por Dickens. Num registo bastante mais actual, a obra cinematográfica não perde pontos por não fazer jus ao original do escritor britânico. Atrevo-me até a dizer que melhorou o seu enredo, por possuir personagens que carregam mais robustez e marcas de vivências bem mais delineadas e claras. Se calhar foi só sorte no casting, mas Paltrow e Hawke parecem ter sido escolhidos a dedo para encarnarem Estella e Finn. Na verdade, fazem até um bom casal.
Uma das coisas que mais chama a atenção na película de 1998 são as paisagens intocáveis de um qualquer estado unido onde parte do filme se passa, a casa onde Estella cresceu e a sua tia envelheceu ao longo dos anos, tornando-se numa das figuras mais emblemáticas da história, responsável por incutir determinados pensamentos e teorias e de marcar a vida de Estella com as mesmas. 
Desconhece-se o final de 'Great Expectations' no cinema, mas quer-se acreditar que se trata de um bom final, de um final com significado, já que durante o filme, o autor nos confunde através de jogos psicológicos e sexuais. Confunde amor com paixão e com atracção e leva-nos a pensar que a classe social e intelectual vale mais do que o sentimento. Do final só Cuáron pode falar, mas todos nós somos livres de fazer as previsões. E um filme que vale sempre a pena ver, ainda que não seja tão 'exclusivo' e 'original' como a Árvore da Vida ou os filmes do tão aclamado Almodôvar.
Mais ou menos fatalista, 'Great Expectations' excede mesmo as expectativas e decerto que fará o mesmo a quem gosta de dramas românticos de qualidade. 

Abaixo, deixo o trailer, que pode não exceder as expectativas, mas vai certamente abrir o apetite a quem ainda não está convencido.