sexta-feira, 9 de março de 2012

Cor violeta

Dia 25 de Outubro voltam a pisar os palcos. Portugal corre-lhes nas veias, no coração, nos pulmões e nas cordas vocais. Corre-lhe a língua portuguesa nas letras e nos ritmos. Pena é que quase nos tenhamos esquecido de como soam na verdade. As recordações só são possíveis através de vídeos do youtube, corroídos pelos anos que já passaram desde que a banda se desmembrou. Ultimamente, só Felipe Pinto do programa Ídolos os trouxe de volta com a sua interpretação de "Ouvi Dizer", um hino ao amor - ou há quem diga, há falta dele. 
Fantástica e felizmente, os poetas e cantores Ornatos Violeta voltam aos coliseus de Lisboa e Porto nos dias 25 e 30 de Outubro deste ano. O que se queria mesmo é que o grupo nunca se tivesse separado, mas em entrevista, disseram que era uma decisão necessária para que continuassem todos amigos, que aquele não era um percurso que tencionavam continuar. Alguns membros da banda já fazem parte de outros grupos musicais, sendo um deles o Supernada. 
Agora resta-nos aguardar para o próximo passo daqueles que um dia foram os Ornatos. Esperar mais um pouco para voltar a vê-los juntos e ter o prazer de os ouvir tocar fortes temas como "Chaga", "Ouvi Dizer" ou mesmo "Chuva". E se escutarmos com atenção, ainda vamos conseguir ouvir gritos de saudades. Saudades de palco, de pessoas e de poemas. Bem, disso não tenho a certeza, mas sei que eu tenho. Saudades de poemas e dos Ornatos. Saudades dos poemas dos Ornatos.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

português não é português se não tiver manias

Comprei o Cemitério dos Prazeres. Comecei por uma página ao acaso e não consegui parar de ler. Este primeiro livro de Pedro Boucherie explora as minúsculas coisas irritantes que o povo português teima em continuar a fazer, certamente com o pensamento de que 'Oh, que típico' e que assim se deve portanto, seguir a tradição. Ideia estúpida. Não se devem seguir tradições que não fazem sentido, não se devem repetir as asneiras e é isso que Boucherie vem notar. O livro está absolutamente fantástico, mas isso é só a opinião da minha modesta pessoa. Ainda que portuguesa, sou capaz de apontar os mais diversos males de que a nossa sociedade sofre. Falso patriotismo, falta de rapidez e de eficácia, aversão a muito do que não é português (ainda que nem tudo o que é nacional seja bom) e por aí fora. Admito que não consigo chegar tão longe como o autor e pôr-me a debitar apenas defeitos e apontar poucas qualidades, mas a verdade é que quem compra o livro, já deverá saber de antemão o que aí vem. É uma sátira, uma ironia e tem um intuito bem marcado. Para ler Cemitério dos Prazeres, é preciso ser-se mais mente aberta do que a maioria das pessoas e estar-se de melhor humor do que na maioria dos dias. Não diz coisas bonitas dos portugueses, portanto preparem-se para uma pontada de irritação durante a leitura de algumas passagens, mas essa pontada vai acabar por desaparecer quando um sorriso se apoderar da vossa cara, por se reverem em muitas das situações descritas por Boucherie. Ele é atrevido e desbocado e muitas vezes, pode parecer que até nem é português. Mas aí é que está o prazer da leitura deste livro. Pedro Boucherie é português e na minha opinião, expresssa-o da melhor forma possível: escrevendo sobre Portugal e em certa medida, sobre si mesmo também. 
Estou em perfeita concordância com várias das coisas descritas naquele livro, como o jornalismo em Portugal. O ex-jurado do programa ídolos da SIC diz - ilustrando com bons exemplos - que o jornalismo em Portugal é incrivelmente parcial no que toca a questões raciais e étnicas. "Indivíduo de raça branca ou negra. Forma habilidosa de qualificar alguém por causa da cor da pele. Só é usada quando há negros nas notícias. Em jornalistês, quando não há referências à raça, todos os intervenientes são causcasianos". Mais grave do que os jornalistas portugueses utilizarem este tipo de comparações numa notícia, é que isto ser ensinado em algum lado por alguém. E mais grave ainda é que este tipo de imparcialidades irracionais dos jornalistas não é coisa nova. Ou seja, com isto quero dizer que o problema deste tipo de expressões começa em quem as ensina e não em quem as publica (embora essas também devessem ter a independência intelectual suficiente para distinguirem aquilo que se deve fazer do que não se deve fazer). 
Há uma cadeira engraçada e francamente pouco útil na faculdade chamada Teoria da Notícia, em que é suposto ensinarem-se coisas como o que é o Lead, como se constrói uma notícia simples, que material tirar e aquele a incluir na publicação final. Confesso que não a tive, mas também admito que olho em volta e não vejo em que é que essa mesma cadeira possa ter sido útil para a geração que hoje em dia, forma o quadro de profissionais responsáveis por manter são, aquilo que Mário Mesquita chamou de Quarto Poder. Em Teoria da Notícia, deviam ensinar o que fazer, mas também o que não fazer dentro de uma redacção (mais precisamente no momento da publicação das notícias).
Tendo já referido a grande desilusão com que me tenho deparado relativamente ao estado do ensino nas academias portuguesas de ciências sociais e correndo o risco de me repetir, adianto apenas que acho inadmissível que sejam feitas comparações 'racistas' deste género. 
Isto tudo para vos tentar avisar da ironia mordaz com que Pedro Boucherie fala dos portugueses. Detentor de um dom para a escrita, o autor de Cemitério dos Prazeres consegue fazer-nos franzir a sobrancelha de espanto por lermos tantas coisas sobre as quais nunca havíamos pensado e ao mesmo tempo, rirmos à gargalhada por coisas que são realmente muito nossas, muito próprias. Um livro muito pouco cheia de elogios mas ainda assim, muito 'nós'. 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A luz da madrugada

Com os olhos ainda fechados, percorri a cama com as mãos na tentativa de te encontrar para me confortares. Quando fechei as palmas e encontrei apenas o vazio do teu lado da cama, procurei-te pelo quarto escuro. Não estavas. Pensei em não me preocupar e simplesmente virar-me e continuar no planeta dos sonhos. Mas não consegui, estava sozinha e fazias-me falta.
Corri o quarto escuro com o olhar, mas mais uma vez, não te encontrei. Já preocupada, senti a necessidade de me levantar, abrir a porta e procurar-te pela casa. A luz do luar estalava-se-me nos olhos, cegando-me momentaneamente. O caminho até à sala era cheio de altos e baixos, tinhas livros e mais livros e umas coisinhas insignificantes espalhadas por todo o lado. Começou a cheirar a tabaco e um fumo espesso já entrava pela cozinha dentro. Um perfume demasiado forte para ser apreciado a esta hora da madrugada. Agora já sabia o que estavas a fazer e apetecia-me voltar para a cama. Ainda assim, queria ver. Estava a fazer o caminho ao contrário e detive-me. Fui à sala. Encostei-me à ombreira da porta e lá estavas tu. Era tão bonito apreciar-te. Sempre adorei apreciar-te. Quem me dera que fosses sempre assim. Tão dedicado, tinhas-lhes uma paixão tão grande. Lá estavas tu, como em noites passadas. A luz que entrava naquele 3º andar tinha uma cor agradável, quase convidativa. Era de um vermelho escuro brilhante. Lá estavas tu. Passavas uma mão no cabelo e com a outra, seguravas um cigarro com a cinza por bater. Imerso no que estavas a fazer, nem paraste para pensar de quem seriam os passos de quem se aproximava. Lá estavas tu. Com o livro pousado no colo e as pernas empoleiradas em cima do varandim, lias histórias de pessoas inquietas com uma paz de alma que raramente é tua característica. Lá estavas tu. A luz era realmente agradável, principalmente quando acertava mesmo no teu tronco nu. Já havias batido o cigarro e a cinza jazia agora dentro de um pequeno cinzeiro de metal que te ofereci para situações como esta. Como era perfeita aquela visão de ti a leres, tão sereno, que quase me esquecia que tens defeitos. O vidro da janela estava aberto porque fazia calor naquele minúsculo apartamento que era todo muito teu. Passou uma brisa gelada, tão fria que te fez arrepiar. Mas ainda assim, lá estavas tu. Não paravas para pensar, para olhar, não paravas para mais nada sem ser para ler. Não queria quebrar aquele momento. Queria tanto congelar esta tua imagem na minha cabeça, que não queria sequer mexer-me para que tu me notasses. Pé ante pé, voltei para o quarto, e ao pensar na luz vermelha que entrava pela janela e no teu livro de colo, só desejei ter o privilégio de ser para sempre tua, nunca ser de outro alguém. Nunca me deixes pelos livros. Deixa-me estar aqui dentro da tua cama, da tua casa, da tua rua. Deixa-me estar perto de ti e dos teus pensamentos. Eu, tu e os livros. Pode ser? Diz que sim, por favor, diz que sim. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Se quiseres, podes perdoar-me

Lá estavas tu, com o mais típico casaco de todos os tempos, a fumar um cigarro junto à coluna. Desta vez, a coluna não era a do paradise garage, mas sim do café do castelo. Combinámos ali porque sempre tiveste um fascínio desmesurado por aquele sítio, uma daquelas paixões que se tem por coisas que nunca se conheceu. Como eu pelo Brad Pitt, por exemplo. 
Antigamente não fumavas. Não usavas casacos típicos. Não trocavas uma coluna por outra. Antigamente eras meu e hoje... Bem, hoje não sei bem de quem serás. 
Conta-me tudo, não me escondas nada. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Fantástico como só me ocorrem expressões coloquiais para quebrar um gelo que já foi fogo. Apetece-me abraçar-te como sempre e falar sem parar como sempre. Como antigamente, continua a apetecer-me beijar-te mas nunca fazê-lo, como sempre. 
Ahh cá está. O sorriso realmente é uma coisa que nunca muda. Permanece igual durante anos a fio. Mas notei que sorris menos. Tá certo... Agora fumas, usas roupa da moda e não sorris. 
Oh, isto. Sim, mas já uso franja há uns anos, dá-me um ar mais novo do que aquele cabelo compridão sem forma que eu usava, lembras-te? Isso, eu sabia que te ia fazer rir.
Empresta-me isqueiro. Quer dizer, não sei se quero. Quero fumar, mas não quero que me dês isqueiro. Na minha cabeça, tu ainda não fumas. Depois de jantarmos já mo podes emprestar, já te vou conhecer melhor. Sim, porque agora não sei se te conheço. Serás mesmo tu? Reconheço a voz, reconheço o sorriso e as mãos, que sempre me meteram um medo imenso, tu sabes disso. Grandes e constantemente roídas. É verdade... Ainda não deixaste esse vício irritante? Eu deixei-o aos seis anos, como bem sabes. Desculpa estar a trazer coisas do passado, mas sinceramente, se não falarmos do que já passou, vamos falar de quê? Não sei quem são os teus amigos, se tens namorada ou não, o que fazes da vida. Se bem me lembro, nunca foste de fazer o que quer que fosse. Desculpa, mas não sei falar de coisas que desconheço.
Sim, é claro que o presente interessa, mas porque é que insistes tanto em deixar o passado no seu lugar? Magoa-te pensar no que aconteceu? Ou magoa-te mais pensar naquilo que não aconteceu? É que para mim é-me igual, dói igual. Aliás, posso-te dizer uma coisa que acho ser um segredo? Estou para aqui a direccionar-nos para o passado, porque não quero saber do teu presente. 
Eu sabia que ias concordar comigo. Concordas sempre. Pedíamos sempre a mesma coisa: 'É uma torrada e um galão, por favor', lembras-te? Depois vinha aquela eterna discussão no momento em que eu ia fumar o cigarro matinal e tu punhas-te a barafustar comigo, uma exposição detalhada dos malefícios do tabaco e seus constituintes. Para ser sincera, já nem me lembro do que dizias ao certo. Ainda continuas a ter aquelas tuas ideias pseudo revolucionárias, de fazer do mundo um sítio melhor e essas tretas? Sim, claro que são tretas. Questiono-me se alguma vez acreditaste verdadeiramente em todos os disparates que dizias...
Não, os meus dentes não estão mais brancos, estão na mesma. Ai, desculpa, mas sabes que odeio quando te pões com essas suposições vindas de lado nenhum. Óbvio que os meus dentes não estão mais brancos, nunca poderiam. Fumo há mais de quinze anos como bem sabes, o mais que podem estar é iguais. Bem, estou um bocado aborrecida de estar aqui ao frio, só porque te deu na cabeça vires apreciar o teu querido castelo. Vamos jantar, tenho fome. Se calhar até quero que me contes tudo durante o jantar. O antes e o depois. Quer dizer, só o depois, que o antes já eu sei, eu estava lá para saber. Fiz parte de um antes e se quiseres, posso fazer de um depois... Ao combinarmos cafés e jantares, claro. Não quero que penses nada de mais. É isto assim e nada mais. Não queiras pensar mais do que isto, porque senão estragas tudo e acredita que eu não volto para tentar. Não depois de quinze anos. 
Que os teus olhos não me tentem, que os teus lábios não me chamem, que aquele teu perfume barato não me faça fazer-te coisas das quais te vais certamente arrepender. 
Vá, acaba lá de fumar esse cigarro que quero jantar. Só não te esqueças que eu fico na cadeira do lado da parede, é mais confortável. Sim, também duvido que te esquecesses depois de tantas vezes que respinguei contigo, por ficares com o meu lugar.
Oh, olha a música que está a dar... Pronto, pronto, não precisas de olhar assim para mim. Sempre que a oiço, rio-me em vez de chorar. Sim, admito que dantes chorava em vez de me rir. Sabes uma coisa? Passado algum tempo, os momentos deixam de estar frescos e podes fazer das memórias o que quiseres. Em vez de me lembrar o nosso fim, lembra-me sempre do nosso início. Percebes agora porque é que me rio?  
Bem... Queres pepsi à refeição, certo? Que irritante, sempre diferente das pessoas normais. Toda a gente prefere coca-cola e depois vens tu e dizes que só gostas de pepsi
Vá, quero saber o teu presente enquanto esperamos pelos pratos. Distrai-me com vulgaridades, não quero ser forçada a lembrar-me de um passado que me obrigaste a esquecer.

And still

Her life was a mess, but still she tried to take another step forward.
His life was a mess, but still he tried to take that step forward with her.
She loved him and still, she never learned how to do it.
Just like her, he loved her too, just didn't know how to.
They were both taught that it was never too late, but they both knew it was already too late.
'Hope is hopelessness', she used to say.
He was too junky for her, too young for her, too reckless for her, too careless for her.
She was too snob for him, too old for him, too full of bullshit for him, too bright for him, too sure of everything for him.
They were perfect for each other, that's what they were. And still, they blew it.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Felicidade Camuflada

Nem sempre se tratou de uma espécie de contrato social, mas a vida ensinou-o assim: é preciso saber fingir para ser feliz. No fundo, a vida não passa de um 'faz de conta', daquele que jogavam quando eram crianças, em que tudo era uma farsa, um escape. Na verdade, o seu escape de outrora tornou-se a sua realidade de hoje em dia.

Made in China

Nunca parou de pensar no que poderia ter sido se fosse. Se se aproximasse mais um pouco e arriscasse.

O problema foi nunca saber como arriscar. Não iria suportar mais um 'não', mais palavras atiradas contra um muro. As palavras caíam no chão e despedaçavam-se como se de pedaços de vidro se tratasse. 

Era cruel o que ele lhe fazia. Parecia fazer-lhe mal ao não aceitá-la, mas ao mesmo tempo, a sua presença trazia a garantia de um sorriso sempre que se viam. 

Perguntou-se se ia sempre ser assim. Sim, ia. Porquê? Assim, ia ser sempre mais seguro, sempre mais cómodo, sempre mais fácil. Ainda assim, era frágil e quebradiço, vidro rasco de uma qualquer marca chinesa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Um bom vinho tinto


O percurso sempre se assumiu longo, mas não preocupante. Nunca preocupante, aliás. Sempre quis um namorado daqueles a sério, que prometem mundos e fundos e ficam para sempre. Vislumbravam-se três filhos, dos quais duas raparigas e um rapaz, todos com idade aproximada e educados com valores de bondade e pureza. Andariam em grandes faculdades e teriam grandes profissões, tal como o pai. A mãe, que também tinha tirado um curso superior acabaria a trabalhar em casa, atarefada entre roupa de cama, lanches para os miúdos e o engomar das suas fardas.
O barulho do comboio que passava quase por baixo de sua casa exactamente às mesmas horas todos os dias e noites, fez com que os seus pensamentos se dispersassem e só lá ficou ela, a olhar pela janela, para aquele mar de gente. Gente descuidada e apressada para nada, o nada que imaginava serem as suas vidas. Há medida que o estrondo do comboio se dissipava no ar, os pensamentos voltavam ao lugar para mais uma vez remexerem num passado que nunca chegou a acontecer, uma realidade paralela que outrora fora ideal. 
O presente não se dava ao luxo de fazer sonhar. Dava-se sim, ao luxo de fazer viver. Os dias eram passados em frente ao computador, onde era frequente ver-se uma janela que exibia relatórios de contas e outra aberta num qualquer tipo de rede social. De tempos a tempos, o chefe passava e gritava desesperadamente pelos ditos relatórios, ao mesmo tempo que a rede social emitia apenas silêncio, denunciando a falta de comunicação que ela tinha com o mundo. Cinco horas da tarde era a hora desde há muito escolhida para arrumar a secretária e sair. Os saltos altos que se seguiam meias de vidro pretas, ecoavam pelo grande parque de estacionamento subterrâneo, pelo qual todos os dias passava para pegar no carro e seguir para as infindáveis e imprevisíveis filas de trânsito até casa. Mais uma vez, a casa estava vazia e era também mais outra vez que ela desejava que alguém lá estivesse à sua espera, segurando dois copos de bom vinho tinto e uma panóplia de aperitivos. Isso sim, ‘isso conduziria a demoradas horas de conversas’. Costumava ler muito no tempo livre, mas não tinha com quem partilhar as suas conclusões e por isso aborreceu-se. Consigo mesma e com os livros, que pareceram perder o entusiasmo, que agora se concentrava constantemente na televisão. Nunca tinha ninguém específico em mente, apenas um alguém sem identidade. Era assim que pensava agora, mas nem sempre havia sido. Antes, os planos delineavam uma família de cinco, com muitas alegrias e poucos dissabores, numa casa virada para o mar, em que o sol nunca se punha cedo. Era esta a sua realidade paralela de um outro tempo, de outro espaço. Hoje, os pensamentos baixaram a fasquia e a família já não se queria de cinco, mas sim de dois. Não se queria uma casa virada para o mar, mas sim duas onde pudessem viver separados, juntando-se apenas para queimar horas que justificariam como ‘relaxantes’. Por mais que ela quisesse que isso fosse uma realidade intangível, não o era e ela sabia-o. Era possível como tantas coisas são, o problema estava no que as pessoas diziam. Veriam nela uma transgressora de regras impostas pelo tradicionalismo e conservadorismo que regulava o conjunto das suas amizades. Todos tinham casado e tido quatro ou cinco filhos. Vestiam-se as crianças de igual até estas terem idade para ripostar, tratavam a mamã e o papá por você e eram contratadas amas a tempo inteiro, ‘para que os meninos sejam sempre bem tratados’. 
Toda aquela teoria da família bem sucedida que tinha pena de quem seguia um caminho que não era considerado o certo, provocava-lhe náuseas e hoje em dia, sentia-se cada vez mais distante de tudo aquilo. Tão distante, que a vontade de comparecer aos banquetes educados e festas comedidas era pouca, quase inexistente e por vezes até nula. Todos pareciam ter crescido demasiado depressa, com medo que a maioridade se dissipasse.
Muitas eram as vezes em que dava por si deitada no sofá a sorrir, por se imaginar a interromper uma daquelas exageradamente elegantes festas, para fazer um discurso muito pouco adulto. Queria mostrar-lhes que estava viva e de boa saúde, que gostava do seu emprego, de onde morava e do seu companheiro sexual. Irritava-a toda aquela pose de quem tem os bolsos cheios de dinheiro e de inteligência porque no fundo, sabia que tudo aquilo fora provocado por uma série de azares, consequências que a cobardia abafou, vencendo o destino. O sorriso esvanecia-se em seguida, por pensar que todas essas palavras seriam bem merecidas, se não fossem mentira. 
Ainda assim, preferiu continuar a sorrir , ao lembrar-se de como seria o seu inabalável discurso. Com um copo de vinho na mão, arrepiou-se ao imaginar-se casada. Ainda assim, a sua espinha contorceu-se ainda mais ao pensar que ficaria sozinha. Encarava o casamento como uma cruz vitalícia, mas a solidão é que não, isso é que não.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Somos aquilo que vivemos

As coisas da vida não são muitas vezes baseadas em escolhas aleatórias. Raramente em favor daquilo que queremos, em detrimento do que precisamos. Não escolhemos o curso X porque não dá emprego, não escolhemos uma casa no campo porque um dia vamos precisar de viver na metrópole. Não escolhemos a pessoa Z porque não nos parece seguro. No final, acabamos com uma pessoa a quem até já nos conseguimos habituar, numa casa que não é o nosso lar e a trabalhar num qualquer tipo de coisa que odiamos. 
Isto é comodidade, não é felicidade. Há quem diga que a felicidade é subjectiva e que se aprende, mas eu não acredito nisso. O mais frustrante no meio disto tudo, é que um dia tivemos o descaramento de prever o futuro e o tiro saiu-nos pela culatra. 
Nunca tentem passar a perna ao futuro, porque há-de sempre saber mais que nós e acabar por se rir na nossa cara; Sempre que puderem, voltem atrás para fazer melhor. Tentem vezes sem conta, estoirem dinheiro a viajar pelo mundo inteiro, estudem o que mais vos interessa e ganhem dinheiro a fazer o que vos dá mais gozo. Escolham uma pessoa a curto-prazo, para uma relação a longo-prazo: as pessoas têm tendência para serem mais espontâneas quando as coisas parecem efémeras - têm tempo para se sentirem seguros e confortáveis quando estiverem no entas. Percam a cabeça com sentido e façam coisas das quais se vão lembrar para o resto da vida. Ponham de lado tudo o que é irrelevante e abram o jogo sempre só com o que importa. Existe sempre uma solução para tudo; pode é nem sempre ser a melhor. Sejam variados em todos os aspectos, tenham uma sede constante de informação e leiam boa ficção sempre que possível - embora todos os romances façam sonhar, só os bons fazem sonhar com qualidade. A monotonia é desde já inaceitável. 
Ah sim... Odeiem coisas previsíveis e pessoas previsíveis. Acima de tudo, odeiem futuros previsíveis na literatura, na música e no grande ecrã, porque são grandes motores intelectuais e se eles próprios nos ensinam mal, como podemos nós aprender bem? Odeiem as pessoas que prevêem o seu próprio futuro e odeiem-se a si mesmos, se o fizerem.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Nomeia-se quem deve

Realmente há com cada uma...! O programa 'Eixo do Mal' da SIC Notícias, que deu no passado sábado por volta da meia noite, resumiu o principal e mais grave mal da sociedade portuguesa e do seu governo: o clientelismo e os caciques que por cá existem. 'As nomeações' foram o assunto da ordem desta última semana (já nem digo do dia) e têm realmente muito que se lhes diga. Sempre munido da sua autoridade e da sua modéstia (que é nenhuma), Catroga afirma ter direito ao chorudo ordenado que vai começar a receber, agora que pertence à direcção da EDP, comprada recentemente pela empresa chinesa Three Gorges. Ora, tal como a já conhecida quadrilha do 'Eixo do Mal' disse, esta é uma das mais graves afrontas por parte do governo PSD, maior até do que o corte dos subsídios dos portugueses. Como não poderia deixar de ser, concordo plenamente com isto, que é uma terrível afronta. Porque há-de Catroga receber cinco e seis vezes mais do que muitos portugueses que se matam a trabalhar? Desconheço o tipo de trabalho que será por esta personagem desempenhado, mas duvido que exceda em muito, o de milhares de outras pessoas. 
Outra das questões que me fez pensar foi a constante troca de dirigentes de empresas que já é da praxe, no momento em que um novo governo é eleito. Nunca consegui perceber esta teimosia de trocar dirigentes, em favor do governo/partido vigente. Uns dizem que é deve ser feito sim senhora, em favor de uma maior coesão, se essas mesmas empresas forem de cariz público e outros dizem que não deve ser feito, porque apenas irá fortalecer as relações de clientelismo que todos nós já bem conhecemos. Favores são a moeda de troca mais usada em Portugal e se o euro acabar por desaparecer, o escudo não vai ser preciso, porque os favores são bem mais valiosos e conseguem muito mais coisas. Sábado disse-se que o problema de Passos Coelho são os dias de hoje, que são por si passados a pagar dívidas àqueles que o ajudaram a subir ao poder nas últimas legislativas. Assim, passa os dias fazendo favores e muitos deles vieram agora à tona, com todo o cenário das 'nomeações'. O mais escandaloso dos casos foi o de Manuel Frexes, antigo presidente da câmara do Fundão e devedor de vários milhões à Companhia das Águas de Portugal. Ora eis que se anteriormente era presidente de uma câmara devedora às águas de Portugal, Passos Coelho decide senão colocá-lo na direcção desta mesma companhia, provavelmente com o propósito de pagar a sua dívida em horas de trabalho, certamente. 
Situações como estas são altamente inaceitáveis e digo-o não como opositora ao partido - porque já de várias vezes concordei com algumas políticas do governo, que visam a estabilização das contas do país - mas como cidadã portuguesa. Actos como este levam-me a pensar que não resta esperança para aqueles que aqueles que são bons no que fazem, a não ser que tenham cunha. As cunhas são a nova moeda de entrada no mundo do trabalho, tanto para os mais jovens, como para os mais velhos.  Muitos de nós acabam por não mostrar os seus dotes de dirigentes, bons economistas ou advogados, em detrimento de favores e dívidas que Passos Coelho se acha no dever de pagar. Chato é que todos precisemos de ser filhos de pessoas como Catroga ou Frexes. Isso sim, é que é chato.