terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Entre quatro paredes

O tempo era só mais uma coisa. Uma coisa, insignificante, tão pequena! De todas as coisas que importavam, o tempo não era uma delas. As palavras sim, eram importantes, cruciais até. Faziam do mundo um lugar melhor e pior, simultaneamente. Afectavam relações e a forma como funcionavam, eram elas que ditavam tudo. Deitado na cama, pensava que os homens eram demasiado básicos e que era por isso mesmo que as mulheres não os percebiam. 'Complicada como ela é, vai achar que quero acabar tudo', mas não era isso que ele queria. Ele queria saber, saber o que esperava dela a longo prazo, mas bem sabia que as relações não eram coisa de ser pensada a longo prazo. Um dia de cada vez sempre foi o seu lema de vida, mas a vontade que tinha de a agarrar, de a beijar e de simplesmente estar com ela, fazia-o duvidar da veracidade desse lema. Estar com ela era o que ele queria, mas não tê-la se não fosse para durar, isso já não era vida para ele, 'isso é coisa de putos, de gente imatura'. Era agora ou nunca. Ou ia querer para sempre, ou nunca mais ia querer. Ou melhor dizendo, nunca mais ia poder querer. Sim, porque depois de ditas as palavras, não há como voltar atrás, isso ele sabia e nada ia mudar. Ele já sabia. Ela ia dizer não e uns meses mais tarde ia arrepender-se, ia ter noção do que perdeu e nessa altura, mesmo que ele estivesse sozinho (sim, porque ela era a única que ele queria para sempre), não ia aceitá-la, porque nada podia interferir entre si e o seu orgulho. 
'Finalmente!', exclamou quando a campainha tocou, ao mesmo tempo que o seu estômago se contorcia ao pensar que seria ela à porta e o que responderia quando ele perguntasse. De repente, viu-se preso num cenário horrível e só as palavras o podiam resgatar. Ela estava sentada com as pernas cruzadas, posição típica que tomava sempre que chegava àquela casa. Estava descontraída, à espera de mais do mesmo, de mais daquilo que sempre foi, de mais paixão assolapada e de nada mais. Pegou no comando para ligar a televisão, mas ele impediu-a. Agarrou-lhe o braço e calmamente, colocou o comando na mesinha de centro. Estranhou, mas não se mexeu para o buscar. Ele encheu-se de coragem, de toda aquela que conseguia imaginar e pensou de depois de proferir as palavras, nada mais podia fazer senão ouvir. Mas agora não, agora restava-lhe falar e não ouvir. Disse tudo, tudo o que sentia e tudo o que não sentia. O que queria dela e dele, o que planeava para os dois, aquilo que via ser a felicidade de 'um dia'. A palavra sagrada não foi dita, porque esperava a resposta dela.
Serena como sempre foi, olhou-o nos olhos, como quem diz 'estás louco, o que andaste a beber antes de eu chegar?'. Soltou uma gargalhada tão verdadeira, que ele próprio começava a acreditar que estava a delirar. Manteve-se calado, esperando a tal resposta. Percebeu, ela finalmente percebeu. Que era a sério e que infelizmente para si, era para sempre. Ele falou-lhe de viajarem e de viverem juntos e ela só conseguia imaginar a vida a dois entre as quatro paredes que eram o quarto dele, numa cama que sempre foi deles, que estava para sempre manchada com o suor de uma paixão que ela não queria que passasse mesmo disso, de uma paixão. Sempre foi serena, mas agora estava assustada e com medo, um medo que a sugava para dentro de si mesma, que a corroía e a mandava fugir. Levantou-se abruptamente e só disse 'eu não consigo fazer isto agora. Agora não dá', dirigindo-se para a porta e impedindo sempre que os seus olhares se cruzassem. Agora era ele que estava sereno. Sereno por ter explodido de palavras, aquelas que sempre quis dizer enquanto ela só queria a paixão. Ele pegou então no comando e ligou a televisão. Deitou-se no sofá enquanto o bater forte da porta ecoava pela casa. Não lamentava nada, mas gostava. Gostava de poder lamentar, mas não o fez porque sabia que não tinha esse direito. Tinha dito tudo o que queria e ela tinha ouvido aquilo que não queria. Não queria pensar mais nisso, mas os pensamentos assombravam-no e ensurdeciam as vozes da série televisiva. Entre pensamentos e vontade de lamentos, a campainha voltou a soar. Seria certamente o carteiro que trazia uma encomenda. Abriu a porta e sentiu-se de novo vivo. Ela voltou para pedir desculpa. Por tudo aquilo que não disse e não fez, por tudo aquilo que lhe fazia ter medo. Cruzou os olhos propositadamente e mais nada a parou, nem o sentimento de arrependimento que pensou ter nos momentos a seguir. Aquele quarto que sempre foi deles, cheio daquela paixão só deles, fê-la perceber que havia mais do que aquele quarto. O tempo que passavam na cozinha a jantar, na sala a conversar e na casa de banho a partilhar momentos de higiene entre a lavagem dos dentes e um duche rápido fê-la perceber que havia mais do que a paixão. E foi por isso mesmo que a seguir pegou no comando, desligou a televisão e permaneceu naquele 'ali' que agora era todo só deles, naquele conjunto de paredes que não eram só quatro e que não continham só paixão.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pedra no sapato

Nem todos os dias eram maus. Nos dias em que ele se lembrava de a mimar e dizer 'amo-te', tudo corria bem, mas o problema estava na periodicidade com que esses dias apareciam. Um pouco como ele, eram raros. Eram escassos e essa era a razão pela qual ela os aproveitava ao máximo, sem questionar nem ripostar. Acreditava que se ripostasse, tudo iria por água abaixo e os dias que eram raros, tornavam-se inexistentes, embora ela soubesse. Dentro de si, rugia um ódio enorme por todas aquelas que eram melhores que ela, que ocupavam o resto dos dias e que não conheciam a escassez, mas sim a abundância de tempo. Assim, os seus dias eram passados a pensar como seria da próxima vez, se seria melhor que da primeira, se ele se lembraria dela para sempre. Tinha um emprego que lhe agradava, mas precisava sempre daquele ponto final, aquele pequeno e aparentemente insignificante ponto final que faz com que os dias pareçam melhores, só porque sim. E depois voltava a lembrar-se. O ponto final era também um pedra no seu sapato e em vez de se querer lembrar dele como parte da perfeição, queria lembrar-se dele como isso mesmo, uma pedra no sapato, dispensável e descartável. Então era assim que o enfrentava, era assim que todos os dias lhe abria a porta, com uma forçada indiferença que gritava 'eu não gosto de ti'. E a verdade era mesmo essa: ela não gostava dele, apenas gostava muito da ideia que havia feito dele, já no início daquela paixão. Embora ela soubesse que as outras iam ser sempre melhores do que ela, iam sempre agradar mais ao olhar, iam sempre mostrar ser mais inteligentes, mais modernas. No fundo, iam sempre ser mais mulheres, mais dignas de estar com ele do que ela alguma vez ia conseguir sequer parecer ser. 'Um dia deixas de existir para mim, faço de conta que morreste', imaginava-se dizendo, sempre que fumava um cigarro esticada na cama. O fumo dava vontade de divagar e pensar como seria se estivesse noutro espaço, noutro tempo. Como seria se lhe dissesse para nunca mais voltar, que estava tudo acabado. E impreterivelmente vinham os outros pensamentos... Como seria se ele também estivesse, tal como ela, noutro espaço, mas no mesmo tempo? Não se cansava de imaginar o quão felizes seriam. O cigarro apagava-se num dos intervalos entre os pensamentos e a mente voltava-se de novo para o trabalho, aquele que lhe ocupava dias quase inteiros. Ela ficava imersa numa onda de contas e de planos de publicidade e prazos apertados para a invenção de slogans de uma nova máquina de lavar roupa. Hoje em dia, ainda pensa 'como seria', esquecendo-se sempre que 'um dia' ia abandonar a imagem dele da sua mente. Feliz ou infelizmente, nem ontem nem hoje foi o dia. De uma forma ligeiramente distorcida, ele fá-la feliz, porque lhe mostra que existe felicidade para além da publicidade. Hoje ele fê-la feliz. "Talvez amanhã seja diferente, talvez amanhã a escassez não me chegue, talvez perceba que a traição não é coisa pequena, que é aflitivo estar na sala com ele e mais dez mulheres, todas elas invisíveis, mas dolorosamente presentes", pensou. Tal como o fumo do cigarro que se preparava agora para acender, todos esses pensamentos de um futuro melhor se desvaneceram como sempre acontece, para darem lugar a uma esperança que não dá frutos. Como sempre acontece.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Parar é morrer

Pensou em não pensar. Em não querer. Depois pensou que melhor que pensar que não queria, era pensar que não podia. 'Se não puder mesmo, então não vale a pena querer', mentalizou. No seu interior, os pensamentos não paravam de esvoaçar, de se cumprimentarem uns aos outros como se nada fosse. E o problema estava nisso mesmo; é que não eram apenas projectos mentais, eram muito mais do que isso. Assombrava-a a ideia de ter que parar porque nunca o fez. Sempre foi aquele tipo de pessoa que nunca parava para pensar e tudo saía automaticamente e curiosamente certo, sempre certo à primeira. Mas finalmente aconteceu, sem mostrar sintomas nem assinalar a sua chegada. O dia em que não parou e nada saiu certo à primeira.. Nem à segunda nem terceira. Desde o momento que descia o lobby do prédio, até que se deitava já de madrugada, debaixo do edredon de penas, tudo era como sempre foi e a rotina era um dado adquirido. Os dias passavam a correr e não havia lugar para intervalos. A vida dela não tinha intervalos. Era como um daqueles filmes dos cinemas Lusomundo. Naquele dia, a rotina pregou-lhe uma rasteira e ela não soube saltar por cima. Caiu de cara num chão que era a realidade de quem não planeia, daqueles que jogam pelo inseguro e não pelo seguro. A multidão amontoava-se a um ritmo frenético e ouviam-se vozes 'Acho que foi um carro. Veio com velocidade e passou-lhe por cima, mesmo quando ela estava a sair do prédio'. Não mexia os membros e não mexia os lábios esfolados e ensanguentados. Os pensamentos jorravam sem querer parar e o sangue sujava o alcatrão enquanto os segundos passavam. O brilho dos seus olhos foi-se desvanecendo, bem como os pensamentos. Despediram-se uns dos outros para nunca mais voltarem.
Um dia quis parar. Esse dia finalmente chegou e ela só queria poder não parar. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sabe a soul e cheira a funk




Dizem-se “portugueses de uma cidade chamada Lisboa, num continente chamado Europa, num planeta chamado Terra”. Querem criar um novo percurso dentro da música portuguesa e são uma lufada de ar fresco acompanhada de ritmos de jazz e hip hop. Os membros da banda portuguesa Orelha Negra conheceram-se ao longo das digressões de Sam The Kid por Portugal e o primeiro álbum da banda saiu para as ruas em 2010 com o mesmo nome. “Orelha negra” é baseado em sons do soul e funk dos anos 60 e 70 com ritmos de hip hop e sampling à mistura.
Em entrevista ao site www.bodyspace.pt, Fred Ferreira (dos Buraka Som Sistema) e o DJ Cruzfader explicaram que o curso das músicas não é planeado, é tudo feito de improviso, o que dá fluidez e continuidade às faixas do álbum, lembrando um pouco aqueles que fazem jazz. “Orelha negra” é o primeiro e único álbum conhecido da banda de nome homónimo. As músicas falam de amor, amizade, mágoa e de uma saudade muito portuguesa. Para o sampling, os membros optaram por escolher registos de que não se estaria à espera: a voz de Fernando Tordo ou do apresentador televisivo Júlio Isidro. “Memória” (a primeira música do álbum) é um manifesto que marca bem a mensagem dos Orelha Negra e, segundo Rafael Santos, crítico do site bodyspace, “é a esperança na
lembrança e no melhor que a alma tem para dar” ao mais exigente dos melómanos. Ainda na entrevista ao site de crítica musical, a banda disse apreciar a ideia de semi-anonimato por achar que “cria um distanciamento das pessoas e uma aproximação mais directa da música”. Para reforçarem esta ideia, os Orelha Negra decidiram usar a técnica de ‘sleeveface’ para a capa do disco de estreia: ninguém é quem na realidade lá está. O grupo criou mais de 80 esboços iniciais antes de escolher as 12 faixas que deram origem ao álbum. As músicas da banda de Sam The Kid, Fred Ferreira (Buraka Som Sistema), Francisco Rebelo, João Gomes (Cool Hipnoise) e DJ Cruzfader não têm um contexto ou tema específico, mas o ritmo está bem presente. Durante a entrevista, Fred Ferreira disse que embora seja complicado atrair público através de algo mais instrumental que vocal, o feedback tem sido bastante positivo, e a verdade é que o estilo e o ritmo próprio da banda já começam a ser identificados pelo público que está na linha da frente dos concertos de Verão. Rafael Santos diz ainda que o disco de estreia dos Orelha Negra é “mais que o mero desfile de pedaços de história captados pelo equipamento que revolucionou as técnicas de produção musical. Há uma dinâmica ‘live’ que reforça a missão do colectivo na divulgação da missiva”. Estamos de acordo. Perguntaram aos membros da banda o que fariam se tivessem de escolher entre só gravar discos ou só dar concertos. Resposta? Dizem que preferiam gravar um álbum ao vivo. Ainda que não seja gravado ao vivo, a banda de Sam The Kid e DJ Cruzfader já está a preparar o próximo disco, para dar a conhecer já este ano.

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE 19 DE AGOSTO 2011 DO JORNAL PONTO FINAL

Let's give it to Annie

Anne Hathaway está cada vez mais versátil nos papéis que tem vindo a desempenhar. Gostava dela, mas entretanto armou-se em boazinha em 'Alice in Wonderland', e acabei por ficar aborrecida. Depois veio a sua fase de predadora sexual, com 'Love and Other Drugs' e eu voltei a apaixonar-me pela sua forma de representar. Juntamente com Jake Gyllenhaal, lutam por uma boa qualidade de vida (se é que assim se pode chamar) de uma mulher com Parkinson, que é representada pela então inovadora e surpreendente nova faceta da actriz Anne Hathaway. Depois de muito choro compulsivo e lenço usado, achei que estava na altura de ver uma coisa assim mais ligeira, menos cheia de drama e melancolia. Ai.. quão enganada estava eu... 'One Day' acabou por ser o romance mais bonito e mais dramático que alguma vez vi. No final recomeçou o choro (quando virem o filme, vão perceber que não é defeito meu) e eu continuava sem perceber bem onde estava a beleza que tanto me havia entusiasmado o filme inteiro, ou seja, não sabia distinguir que parte ou que característica haveria no filme para eu ter gostado tanto. E finalmente percebi: Não é apenas uma coisa, são várias. Estão a ver as paisagens que todos elogiam em 'Eat, pray and love'? E as pracetas e sotaques europeus, próprios de todos os filmes de espionagem onde existe gente francesa e britânica? Bem, e um pouco como em todos os dramas românticos, não deixa de faltar muito amor e coisas que tal. E não é que quando o espectador já está farto de tanto mel, a coisa apimenta com um pouco de erotismo fugaz, festas e bebedeiras? A início, a música parece ser um dos carrascos do filme, por ter traços de melancolia e tristeza, mas de repente, começam a ecoar algumas boas músicas conhecidas, como uma ou outra dos soon to perform at Lux Frágil, Fatboy Slim. Para tornar o visionamento desta peça num momento delicioso de cinema, falta ainda dizer que a linha cronológica traçada em '500 Days of Summer' também existe, o que impede que o filme se torne vazio, sem sentido temporal - não posso deixar de dizer que a caracterização das décadas representadas, também está brilhantemente feita.
Bem, correndo o risco de desembuchar dois ou três spoilers, deixo-vos apenas o trailer e garanto que se estiverem virados para o gasto desmesurado de kleenex, então 'One Day' é o drama ideal.




terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Diz-se que é uma espécie de Apartheid


Israel está a ver um retrocesso no pensamento social dos seus cidadãos, com o grupo de judeus ultra-ortodoxos a criar cada vez mais conflitos. Mais grave do que a vontade de afirmação por parte de um grupo, é aquilo que esse grupo quer afimar. "Os fundamentalistas querem as mulheres sentadas na parte de trás dos autocarros, que caminhem em passeios específicos e façam compras em determinadas horas, práticas rejeitadas pela principal corrente judaica", avançou a Euronews. Quando ouvi as notícias mais recentes, não estava a compreender muito bem o que estava a ser dito e acho que em grande parte, porque não queria acreditar que tal podia acontecer em pleno século XX. Um grupo de fundamentalistas religiosos diz ter vontade 'legítima' que as mulheres sejam segregadas socialmente, dando a entender que são portanto, o sexo mais fraco, quase insignificante. Parece que o novo método de segregação dos ultra-ortodoxos é feito por via da vassourada, atitude com pés e cabeça, com certeza. Seria de esperar que hoje em dia, este tipo de pensamentos fossem já impensáveis, devido aos avanços sociológicos que têm ocorrido nas últimas décadas. Uma das etapas históricas a não seguir como exemplo, deveria ser o Apartheid e sinceramente, foi para isso que me remeteu automaticamente, estas recentes manifestações por parte dos fundamentalistas. Para além da marginalização da mulher, outros ideais muito pouco característicos daquilo que conhecemos como 'democracia', se erguem. O nazismo e a consequente opressão dos judeus foi trazida até ao presente, através de um 'teatro' muito pouco feliz, por parte desta facção mais extremista dos judeus. Ora que o cenário era o seguinte: Crianças vestidas com as indumentárias usadas pelos judeus nos campos de concentração de Hitler, juntamente com a típica estrela que os distinguia. Na minha opinião, esta foi a forma mais triste e agressiva de manifestação de interesses e ideais. Está a causar grandes tumultos no seio da população israelita, que se julgava relativamente livre - dentro do possível e excluindo a luta eterna com os palestinianos - e a criar um sentimento de insegurança e principalmente, de retrocesso social. A gravidade desta situação está precisamente nesse tal retrocesso social, parecendo-se muito com o Apartheid. Sempre existiu esta facção mais radical, mas nunca tiveram tanta importância como hoje em dia e isso é que é preocupante, porque implica uma diminuição notória da situação das mulheres, coisa que está mais do que estabelecida e estabilizada em quase todos os países livres. Mulheres ocidentais vêem-se no meio de uma encruzilhada, entre o direito de terem a liberdade que sempre tiveram e o medo e insegurança de viver no seio de uma população dividida pela religião. Este problema pode até ser visto de uma perspectiva 'irónica', tendo em conta que todos os judeus sofreram com o regime nazi e todos deveriam ser complacentes com a liberdade e direitos aplicáveis a todos os seres humanos, mas na verdade, os ultra-ortodoxos estão, ainda que de outra forma e através de base ideológicas diferentes, a segregar e marginalizar na mesma. 
As minhas conclusões levam-me a pensar que existem um padrão quanto à marginalização. E será que existe mesmo?
Uns distinguem, e condenam 'raças', em favor do ideal de uma 'raça pura' ou em favor da 'raça branca', outros marginalizam e segregam um dos sexos, por o considerarem inferior. Continuam sem encontrar um padrão?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Serviço público português, o novo Alentejo

Dia 14 de Dezembro bloquearam-me o carro perto da Av. de Berna. Obviamente mais que chateada com o sucedido, fui correndo até à dita viatura, para poder pagar e seguir para a faculdade. Nisto, leio: "60€" assinalado como preço a pagar pelo desbloqueamento, sem reboque. Ora pois assim fiz. Liguei para o número que o grande papel autocolante amarelo indicava e o atendedor automático lá me disse que sim, que o meu carro iria ser rebocado dentro de alguns minutos. Esperei, esperei e esperei mais um pouco (mentira, foram 45 minutos), até que a carrinha da imponente EMEL chegou. Nisto, preparava-me para pagar os ditos muito mal empregados 60€ de multa, quando o senhor me diz "são 90€, minha senhora" e eu boquiaberta respondi "eu peço desculpa, mas só tenho mesmo os 60€, que era a quantia que estava escrita no papel". "Pois, mas são mais 30€ de multa de falta de pagamento" e assim, apreenderam-me a carta de condução (e já aqui me questiono sobre que autoridade têm para o fazer), dando-me uma guia para poder continuar a conduzir e disseram para depois pagar e levantar a carta na 'MINHA ÁREA DE RESIDÊNCIA'. "Sintra", pensei. Para que não restassem dúvidas, liguei então para a conservatória de Sintra e de seguida, para o registo. Nunca ouviram falar de apreensão nenhuma por parte da EMEL e que não era nada com eles. Posto isto, liguei para o número que a caríssima empresa de pagamento de Lisboa pomposamente exibe nos seus panfletos e declara estar disponível durante todo o dia, até às 18 horas. Encerrando para hora de almoço às 13 horas, liguei ainda da parte da manhã, para poder esclarecer tudo e resolver até ao final do dia. Na verdade, deviam tirar a palavra "atendimento" do horário, porque às 12.30 horas liguei cerca de cinco vezes e ninguém me atendeu, o que só me faz pensar que o almoço dos caros funcionários começa bem mais cedo do que as horas estipuladas. Não tendo conseguido resolver o meu problema, decidi ligar à tarde, por volta das 17 horas. Nessa altura atenderam-me e uma senhora muito pouco educada e muito pouco prestável, informou-me que deveria ir buscar a carta ao 'GOVERNO CIVIL da MINHA ÁREA DE RESIDÊNCIA'. Ora pois que nunca existiu um governo civil em Sintra, portanto insisti que a informação que me estava a ser dada, era errada. Nada consegui mudar, porque a senhora repetiu tudo, como se de um robot se tratasse e como se estivesse a ler algo e não a esclarecer um utente, que é para isso que certamente lhe pagam - e ao que parece, para almoçar mais cedo também. Assim sendo e sabendo que a senhora não tinha em nada contribuído para a resolução do meu problema, recorri à internet e pesquisei por 'governo civil lisboa', pelo que me apareceu um site com dois números de telefone: um da própria sede do governo civil, e outro de um outro posto que trata somente de casos rodoviários. Assim, liguei de imediato para o segundo número do site e o senhor prontamente me indicou o caminho para lá e o horário de atendimento. Fechava às 16 horas e eu cheguei às 15.30 horas, mas mesmo assim tirei senha, esperei a minha vez e fui atendida, unicamente para receber o papel que me indicaria quanto e onde pagar a dita multa. Os CTT eram o local indicado para pagamentos em dinheiro e então lá fui. Entrei numa porta a uns escassos metros e deparo-me com um cenário muito próprio dos serviços públicos: 4 guichets de atendimento: um vazio e 3 deles com funcionárias a trabalhar. Ora pois que havia senhas para determinar a vez de cada um na fila, mas na verdade, era só uma questão de ordem de chegada. Apenas uma das senhoras estava a atender, enquanto as outras duas falavam sobre unhas e pés e mais umas coisas que não apanhei. E lá estava eu, a queimar tempo com mais de dez pessoas à minha frente e duas senhoras a queimarem o seu, com conversas de pés e unhas. Entretanto já passava das 16 horas e o levantamento da carta teria que ficar para outro dia. Conheço - pessoalmente e outros só de vista - vários funcionários públicos que se matam e esfolam a trabalhar para servir as pessoas e para as atender devidamente, mas depois, caem-me casos destes na sopa. 

Tenho outra história muito engraçada, que não me aconteceu uma só vez, mas sim umas três ou quatro, portanto presumo que já seja praxe da casa. É muito raro ir ao centro de saúde e quando vou, é para ir buscar receitas que foram ou antibióticos para a amigdalite própria de todos os invernos. Então isto é o que se passa: São mais ou menos 15 horas e a sala está vazia, os murmúrios por trás do balcão são a única coisa audível. Aproximo-me do dito balcão e a senhora diz-me "Tem que tirar uma senha e aguardar a sua vez" e eu digo "desculpe, mas não está cá mais ninguém..." e ela repete "tem que tirar uma senha e esperar". Faço o que me mandam, mas na minha cabeça, continua a ecoar a minha próxima resposta: "mas não está aqui ninguém para ter que existir uma ordem à base de senhas!". Calo-me, tiro a senha e espero agora a minha vez. Falam da filha que está constipada e que hoje não foi à escola, do marido que tem trabalhado muito e que ontem estava frio e a porta do centro esteve aberta e que era por isso que estavam todos a tossir. A sala continuava vazia e assim continuou até que resolveram chamar-me quando a conversa já estava a saturar. Lá fui e lá me atenderam, a muito custo. 
E assim funciona um dos serviços públicos mais importantes de Portugal. Por meio de senhas que têm obrigatoriamente de ser distribuídas... pela única pessoa que está na sala. 

O tempo que demoraram a ler estes textos, não foi nem perto daquele que gastei a conduzir, telefonar e conversar com pessoas que dizem "servir a população portuguesa", quando no fundo, estão só sentadas, há espera que o tempo passe e que chegue a hora do 'ir embora'. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Vamos brincar às políticas em Portugal

Ás vezes questiono-me sobre quanto da língua portuguesa os dirigentes de determinado partido sabem. Na minha modéstia de pessoa interessada pelo vocabulário português e com aquilo que é possível fazer com ele, acho que certas coisas começa a cair no ridículo. Esse tal partido tem um novo cartaz que diz o seguinte: "A Troika manda ROUBAR AO POVO E DAR AOS BANQUEIROS". E agora pergunto se saberão o que quer dizer roubar. A liberdade de expressão é um dos pontos vitais para o funcionamento de uma democracia, mas então também é preciso que as pessoas ganhem noções e deixem de 'expressar' tudo o que lhes vai na cabeça, porque liberdade de expressão é apenas o meio utilizado para a troca de conhecimentos, ideias e fazer com que se tomem decisões através do debate e da discussão. Bem, isto então para explicar que começa a ser realmente inacreditável continuar a ver posters e cartazes com frases de apoio a uma coisa que nem sequer consegue existir, dadas as circunstâncias económicas.
Outras vezes, ponho-me só a pensar "será que pensam ser possível implementar os seus ideais?" Sei que a diversidade partidária é um factor positivo, mas a pluralidade polarizada não o é.
Este último palavrão é a definição daquilo que melhor caracteriza a política portuguesa. Em Portugal, se  X e Y são rivais, nunca será mantido um acordo ou qualquer tipo de parcerias políticas, pois o que conta é quem manda e não o que essas mesmas pessoas propõem e fazem. Aqui, não há possibilidade de coligações entre Bloco de Esquerda e PSD ou PS, mas curiosamente, é com esse mesmo tipo de coligações que funcionam muitos dos governos europeus. É realmente impossível adorar todas as medidas de austeridade impostas pelo actual governo. Mas por outro lado, não percebo muito bem porque é que existe esta necessidade de resmunguice e de constante desacordo entre os partidos políticos de Portugal. Esta pluralidade polarizada tem muito que se lhe diga, mas só se percebe bem lendo um famoso livrinho do Hallin e do Mancini, que vem desafiar a conhecida teoria dos seus antecessores. Os autores fazem um estudo comparativo - considerado um dos melhores na área - sobre essa dita pluralidade e como as coligações e entendimentos resultam bastante melhor do que a luta de um ideal utópica sob a forma de discórdia constante. 

Abaixo, deixo-vos então o tão politicamente correcto cartaz do tão conhecedor da epistemologia das palavras Bloco de Esquerda e acaba a chamar ladrões a pessoas que de momento, controlam as finanças de Portugal. Na verdade, tudo isto se parece muito com jogos de tabuleiros, daqueles que entretém e em que existem aliança e inimigos e lutas pelo poder. E assim se faz política em Portugal.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Criação de novo partido em 2012

"Duzentos militantes do Bloco de Esquerda vão abandonar o partido e prometem formar uma nova força política", adiantou a RTP Informação no passado domingo. Ao ser entrevistado, Gil Garcia, o líder do movimento, mostrou-se insatisfeito com as políticas internas do BE, mais especificamente de Francisco Louçã.
Para ser sincera, nem sei bem que reacção tive enquanto assistia à entrevista, pareceu-me surreal demais. Primeiro, porque acho que os bloquistas já estavam um pouco mais à frente, no que toca a credibilidade política (até já tinham representatividade parlamentar!) do que estavam há uns anos, e depois, porque não sei muito bem onde é que Gil Garcia quer chegar com esta ruptura interna. Justificava-se se estivéssemos a falar do PS, que tem mostrado ter das mais variadas linhas de pensamento, dependendo da pessoa; mas com o BE não se percebe. A bem da verdade, nunca foi um partido que alguém alguma vez esperasse ver a dirigir o país, mas lá tinham os seus ideias bem demarcados e sempre me alegrava ver que não mudavam a sua posição, independentemente de mudanças a si exteriores (não, calma... Isso é o PC). Louçã foi acusado por Garcia de ter apoiado Manuel Alegre nas últimas eleições presidenciais, mas então, quem se esperaria que ele apoiasse? Ninguém? Bem, na verdade é mesmo isso que o líder do movimento Ruptura/FER desejava, que o BE se tornasse num Partido Comunista, só que com pessoas mais novas na liderança. 
Agora pensemos no que pode nascer a partir da mente deste idealista tão ferrenho. Será que vai avante com as suas teorias e acaba por conseguir mais do que Louçã conseguiu em anos de luta pelo mínimo de credibilidade dentro da esfera política séria (ou não) em Portugal? Não estou aqui a tomar partidos e a denunciar as minhas escolhas políticas pessoais, apenas a tentar descobrir alguma lógica e coesão no plano de Gil Garcia para 2012. 
'Acusando' Louçã de ter apoiado o socialista nas presidenciais, pouco faltou para que Garcia o chamasse de vendido, mas é um facto que as coligações devem ser bem escolhidas e na minha opinião, isso é uma das principais lacunas no sistema político português. Ainda que todos tenham vontade de fazer como na primária e mandar a chanceler alemã encostar-se à parede de costas voltadas e só voltar para a mesa quando se aperceber das barbaridades que tem feito, a verdade é que na Alemanha, existem fusões partidárias que seriam completamente impensáveis em Portugal. Quase todos os partidos têm representatividade parlamentar e no que toca a governar, quase todos opinam e votam sobre leis e acordos a fazer. 
Um dos principais problemas de Portugal é precisamente termos um sistema pluralista polarizado. Pondo isto por miúdos, quer dizer que temos sempre os mesmos partidos no poder e a escolha nunca diverge muito de um para o outro. Na prática, ambos têm aquilo a que chamamos ideais de 'centro-direita'. Outra das características deste sistema, é a não concordância constante entre os membros das assembleias e do parlamento. Nessas situações, o que conta são os partidos a que pertencem e as rivalidades que existem e nunca são as ideias e propostas que têm. Neste país, não está contra ou a favor de ideias, está-se contra e a favor de pessoas.
Num Portugal ideal, as propostas colocavam-se numa balança e todos os partidos decidiriam de acordo com os prós e contras da proposta, e não de acordo com quem a fez. 
Outras das questões feita pela jornalista que entrevistou o líder da FER, incidiu sobre possíveis coligações poderiam ser feitas com suposto novo partido a formar. Garcia respondeu 'PCP' e eu pergunto-me que frutos dará essa fusão. Uma das respostas mais realistas será 'Nenhuma', tendo em conta a estagnação em que os comunistas se encontram. Ainda que os militantes e apoiantes do PC tenham a função de equilibrar a balança de votações nas eleições, continua a parecer-me uma péssima escolha por parte de Garcia, mas ideais são ideais e ao menos alguns continuam a segui-los à risca... E talvez até demais.
Hoje em dia, em vez se pensar nos partidos e nos deputados por ideias e teorias, começou a pensar-se em termos dos 'mais corruptos para os menos corruptos'. E assim se faz política em Portugal.

Esperemos para ver no que resulta esta divisão do Bloco de Esquerda e em 2012 teremos então mais um partido político à mistura.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saramago não é o fim

Não pude deixar de reparar que fui ligeiramente 'categórica' quando disse que em Portugal não se faz quase nada bem feito. É mentira. Aliás, não é, mas não posso deixar de pensar que posso ser mal interpretada ao dizê-lo, porque na verdade, todos os dias vejo bons projectos a serem pensados, delineados e a serem quase levados para a frente, para passarem da teoria à prática, mas isso depois acaba por não acontecer. 
Acaba por não acontecer porque o governo não tem dinheiro porque está em crise e por consequência, as organizações privadas que costumam financiar projectos do género, também não o fazem porque 'estamos em crise'. Não tendo nada a ver com isto, não posso deixar de dizer que acho que existe uma área em Portugal que está a evoluir brutalmente - tanto em qualidade, como em quantidade. A literatura. Nomes como Valter Hugo-Mãe, Rentes de Carvalho, Pedro Peixoto ou Pedro Paixão inserem-se em géneros completamente diferentes e muitas vezes mesmo antagónicos, mas na minha opinião, não deixam de ser todos autores sublimes, por razões diversas. Rentes de Carvalho é um dos escritores emigrantes portugueses que melhor descreve Portugal a partir de uma vertente muito pouco discutida: o interior do país. De Valter Hugo-Mãe, que não se espere uma literatura light porque não o é. Não me considero no direito de 'catalogar' os escritores que mencionei, só de delinear a minha opinião sobre os mesmo e filosofar sobre as vertentes que acho mais interessantes em cada um. Recentemente, li 'Sinais de Fogo', de Jorge de Sena e ainda hoje, não acredito que tenha sido escrito na altura em que foi, dentro do contexto social e político em que foi. O autor fala da guerra civil de Espanha, de sexo com amor, de sexo sem amor, de pensamentos próprios de um adolescente incompreendido por adultos demasiado velhos, de Coimbra ter quase a mesma importância que a capital Lisboa, do significado de 'estudar fora' ser sempre dentro. 
Fala-nos de uma forma tão humana e tão literária ao mesmo tempo, que é difícil não nos colocarmos ao lado do narrador e não pensarmos "eu também falo assim de vez em quando". Concordo com a teoria de que não fica bem colocar palavrões em obras literárias, mas Jorge de Sena consegue escrevê-los de uma forma tão utilitária, que perde o sentido feio e nojento que é de costume incutirmos. Em suma, consegue fazer com que os jovens se identifiquem e os mais leitores mais velhos retrocedam no tempo e se apercebam que ser adolescente não pode ser esquecido e mantido na penumbra de um passado distante.
Dantes não gostava de literatura portuguesa. Tinha um preconceito estúpido que ainda estou para saber onde nasceu - começo a desconfiar que foi no secundário, quando me apresentaram grandes autores e obras portugueses com uma falta de entusiasmo gritante. Achava que tudo o que era escrito em português tinha de ser escrito daquela certa maneira e com aquele estilo específico, até que abri os meus horizontes e me apercebi que a literatura portuguesa não acabou em Saramago ou Sttau Monteiro. A literatura portuguesa continua e muito bem, continua a avançar e se as organizações e o governo quiserem, de vento em popa. E se a crise também ajudar, claro.