domingo, 12 de agosto de 2012

Como sempre

Somos todos assim. Feitos de uma mistura de gorduras lascivas que se derretem na noite secretiva. Os corpos desfazem-se com o calor, mas são feitos de uma matéria tão especial, que voltam ao lugar em apenas alguns minutos. Frios e brancos, voltam a ser frios e brancos como sempre.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vida

Não me querias largar. Mas eu não te queria por perto. Aquilo que sentias não era saudade nem era vontade. Era o sentimento de teres passado uma vida a meu lado, de agora não saberes o que fazer com ela. A vida, quero dizer. Chegara o momento em que terias de te movimentar sozinho, de te alimentar sozinho, de sentir tudo sozinho, sem partilhas nem armadilhas. Sem discussões nem batalhas vencidas. De repente sentiste-te o homem mais poderoso do Mundo, capaz de qualquer coisa, de vencer qualquer desafio proposto. Começaste a perceber que não era eu que te fazia falta, eras tu próprio. Um dia enclausuraste-te dentro de mim e nunca mais saíste até hoje. Hoje foi o dia em que escolheste ser tu, em que preferiste a tua liberdade ao amor monótono de uma vida. Hoje vais ser feliz com a tua escolha.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ali mesmo. Assim. Ali.

Olhar vítreo, ombros e braços pesados e brancas a voar ao sabor do vento. Viu-se diante da cidade que já foi sua, um espaço por si eleito. Desterrado de si mesmo, encerrou ali o seu capítulo. A série chegou ao fim e ali estava ele, preso num estúdio que não queria largar, que não sabia largar. Temia aquele lugar, mas preferia-o, à dor de sequer pensar como seria a saudade.

sábado, 21 de julho de 2012

Existência

Mata-nos a todas, essa inércia que é viver. Ora somos as pessoas mais ocupadas do Mundo, ora desejamos desaparecer para bem fundo de um poço. Não morrer, apenas deixar de existir, deixar de ser. Deixar de ser assim como somos, como sempre fomos. Será que isso quer então dizer que não nos sentimos bem sendo quem somos? Bem, talvez seja isso, sim. Mas será que isso é mau? Talvez não. Há quem ame uma pessoa que nunca existiu, que crie uma personagem dentro de alguém real. "Tu gostas da imagem que fizeste de mim", costuma frequentemente ouvir-se dizer. Se assim é, então porque não podemos nós "Gostar da imagem que fazemos de nós"? Às vezes parece ser possível querer ser assim, normal. E depois de repente desatamos aos pensamentos e aos pontapés à rotina e essa lógica desconstrói-se para dar lugar a uma coisa maldita, a uma imagem desfocada que agora ansiamos mais do que qualquer outra coisa no Universo. O céu corrói-nos e parece gozar connosco. Está ali tão quieto, mas ao mesmo tempo tão omnipresente e tão cheio de si. Acha-se o maior. Todos nos queremos achar os maiores. E porque é que não? Esta inércia de vida é que não.

Escolhe

Então, perdeste-te entre as memórias? Sei que são grandes demais, mas não chegam para tanto. Sabes qual é o problema? A fragmentação das coisas. Quando algo se parte em infinitos milhões de bocadinhos, é um bocado impossível que tudo voltar a ser como um dia foi.
Esta é a história da tua vida. Da minha. De vossa e da deles. É a história de todos nós que se fragmenta aos poucos sem dar sinais.

Tudo acontece e ninguém se apercebe.

Um dia olhas para trás e estás metido num buraco escuro e vazio, quando tentas chamar alguém, a tua voz ecoa e dissipa-se no ar frio da noite.

Um dia olhas para trás e tens três crianças pequenas correndo para ti a chamarem-te "papá". Não sabes o que fazer, já não aguentas o peso e só pensas: "Tenho saudades da solidão".

Um dia olhas para trás e vês a porta do tribunal. Tentaram durante tantos anos para depois acabar assim? Não queres viver, não queres mais nada.

A vista daqui é perfeita. Sem derivações adjectivais. A vista daqui é perfeita. Mergulhas no fundo do ser.. ou do Mundo, como preferires chamar-lhe. Ouves gritos desesperados bem ao longe e pensas em como tudo é tão melhor ali, tão mais apaziguador. Até a dor do sufoco e a falta de ar nos pulmões é apaziguadora. Tudo deixa de mexer. Tudo pára.

Tu páras. A dor pára. A morte dá sinais de vida e tu pareces sentir-te feliz pela primeira vez na vida. Ou na morte, como preferires chamar-lhe.

terça-feira, 17 de julho de 2012

circundante

Cada vez mais te afundas no barulho envolvente. Conquistas o que não queres, deixas partir quem sempre desejaste. Dentro de ti há um fogo que não queima, mas deixa marca. Nunca se apaga e não se deixa apanhar. Tu és fogo e queimas tudo à tua volta. Queimas as pessoas e as coisas. Tudo é agora cinzas. Do que sempre foi, só agora restas tu e nada mais. São quilómetros de distância que deixaste de todas as pessoas e não queres nem mais um centímetro. Mas também não queres aproximação. Queres que fiquem, apenas que fiquem onde estão. Não se mexes, não se movam, não se movimentem. Quero que tudo permaneça estático até que eu queira voltar a mexer-me de novo também.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Assinado

Estás guardado num espaço onde só cabes tu. Não me perguntes onde é, porque nunca soube que existia tal coisa dentro de mim. Quero que saias e que me abandones já. Ouviste, não ouviste? Já. Não é daqui a bocado. Quero já. Esquece. Afinal descobri que é impossível abandonarmos uma coisa que nunca tivemos. E ainda mais impossível que isso é descobrirmos tal coisa sozinhos, sem termos alguém que nos diga isso. Sabes... é que termos alguém que nos diga as coisas, é porque não estamos sozinhos. Tu silencias-me, é isso! Mentira, não silencias nada. Quer dizer, não me deixas falar, mas não é porque me calas os lábios. Tu impedes o meu pensamento de fluir, a lógica de se processar. Tu quebras-me. Vês o que fizeste? Quebraste-me. Não tenho cola e tu não serves. Lamento. Lamento imenso mesmo. 

Os melhores cumprimentos, 

Ass. ___________

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Refugia-te em mim

Nunca te vi mas sei como és. Nunca te senti mas sei o que me fazes sentir. Nunca te olhei e sei como me olhas. És o meu pior pesadelo. Desaparece-me da frente e deixa-me ir contigo. Não me deixes à mercê do vento, ele come-me viva. Não me deixes aqui ao frio, ele arrasta-me para um caminho sem fim, sem fundo, sem margem. Empurra-me para dentro do teu amor. Suga-me confortavelmente. Podes até matar-me se quiseres, eu deixo que me sufoques lentamente. Só não me magoes, mata-me sem dor, com amor e sem dor. Rasga-me a roupa e rompe-me a vergonha. Obriga-me a ser eu, obriga-me a mudar porque isto não sou eu. Aquilo que fizeste de mim não sou eu. Sou outra pessoa. Sei quem sou, mas não quero ser. Sou tu e tu és eu. Dá-me de volta o meu ser por favor. Peço por favor porque sou cortês e educada. Não me mordas o coração, fala-me antes ao ouvido. Eu odeio-te, ouviste? Tens em ti aquilo que mais quero para mim. Dá-me de volta.


Macau, quem és tu?

Macau. Essa cidade metida ali entre os gigantes. Estás presa num tempo que não se conta, enraizada numa alma que não se vê, apenas se sente. Tens a vida boémia e tresloucada dos casinos, tens a calmaria do Rio das Pérolas e a serenidade da intocada ilha de Coloane. Tens as vendedoras de frutas e legumes à beira rio, mesmo a um passinho do continente. Tens os montes verdejantes das ilhotas, que respiram ar puro, o único ar puro que existe em ti. O caminho é sinuoso mas faz-se rapidamente. As ilhas não pecam pela grandeza e sempre tens a paisagem. És tão bonita que não consigo descrever-te. Tens tanto em ti que não consigo expressar-me. Assolas-me e deixas-me muda. Deixa-me falar por favor. Deixa-me mostrar-lhes o quão perfeita tu és, quanta história tens encarcerada dentro de ti. Fujo para ti quando preciso de paz, mas não sei bem porquê nem que tipo de paz é essa.
Que se danem os casinos! Quero-te tanto. Quero a tua histeria discreta, a tua felicidade serena, a tua busca incessante por tudo aquilo que ainda vais ser. Não deixes de ser porque eu não te quero deixar. Não te deixes abandonar e mantém a tua alma. Constrói o teu futuro em volta do teu passado. Preserva o Leal Senado e as ruas que dão para as Ruínas de São Paulo. Preserva as lojinhas que vendem carnes com um cheiro nauseabundo. Preserva os mendigos que passeiam de carrinho de compras em riste. Preserva tudo aquilo que me obriga a ser tua. A Caravela e todos os falsos pastéis de nata e coisas parecidas com um café expresso. Preserva as paisagens e os prédios a perder de vista, as casas que parecem barracas e as lojas de antiguidades mais antigas do que as próprias velharias. Preserva a beira rio e o contraste com um trânsito frenético. Preserva os páteos abandonados e sujos, as piscinas públicas abarrotando de pequenos chineses que gritam a plenos pulmões. Preserva os carrinhos de comida muito pouco higiénicos que ganham vida durante a madrugada, depois de noites loucas sem fim à vista. Preserva a humidade fétida que se sente a cada abrir de janela, a cada sair porta fora, a cada passeata pela baixa. 

Estás presa num tempo que não se conta. Mas afinal... Macau, quem és tu?

sábado, 9 de junho de 2012

Embaciado

Devias estar a fazer-me falta. Não fazes e eu assusto-me com a ausência do sentimento. Na esperança de te ter de novo a assolar-me todos os pensamentos, todos os cantos do meu ser, recordo a imagem de nós dois na minha cabeça. Vezes e vezes sem conta, se queres saber. Reclamavas sempre comigo por deixar a casa de banho demasiado embaciada depois de tomar banho. Como em todos os outros dias, também naquele entraste para mandares um daqueles gritos "não tomes com a água tão quente, não vês que isso até te faz mal?" e eu ignorava-te. Era sempre isso que fazia e era sempre assim que resultava.  Naquele dia preparavas-te para gritar, mas ao contrário dos outros, eu não estava enrolada no meu enorme toalhão de banho verde alface, mas sim despida. Já havia desembaciado a parte do espelho que me dava pela face, a fim de colocar o creme e fazer todas as outras trivialidades de quem acaba de sair da banheira. Olhaste para mim e abriste a boca, mas não gritaste. Espantado, não desviavas o olhar. Estranhei-te. Sempre tão descontraído... Mas naquele momento parecia que tinhas acabado de me conhecer, que me estavas a vislumbrar pela primeira vez. Atreveste-te a tocar-me no ombro despido e ainda húmido. Palmilhaste-me o corpo cuidadosamente, como quem não queria magoar-me, como quem queria conservar-me eternamente. Como quem embarca numa aventura até ao centro da terra, desceste com os lábios até ao meu pescoço. Continuei a olhar na direcção do espelho. Ver a tua excitação e o meu prazer espelhados por entre o vapor. Não me mexi. Não queria assustar-te. Sabia tão bem saber que não tinha passado ao estatuto de melhor amiga, que continuava a ser uma mulher em toda a plenitude que esta deve ser, com todos os luxos e desaires da sua condição. As tuas mãos de unhas roídas começaram lentamente a percorrer-me os braços, passando pelo meu ventre, pelas minhas costas, pelas minhas pernas. A tua boca caminhou um pouco mais e foi ao encontro da minha. Fomos até onde não sabíamos ser possível.

Nunca mais reclames comigo por causa do vapor na casa de banho.

Não gosto da sensação de sair do banho, limpar o espelho com a mão e não ter a tua imagem comigo.